Um acontecimento

Só às vezes, porque não é tão comum, ele via acontecer alguma coisa sem que tenha sucedido para ele coisa alguma. Tudo menos o extravagante passava despercebido. E mesmo as excentricidades precisavam, no mais das vezes, cutucá-lo para assim serem.

Ele estava lá, a mesa estava lá. Ele estava à mesa. A comida, sobre a mesa. Alguns ao lado e muitos nos arredores. Ela estava logo ali, à outra mesa.

Teve início o espetáculo. Era para rir. Só para rir mesmo. Quem estava ali para interagir estava a trabalho. Nada mais aconteceria a não ser pela graça... E graciosamente ele perdeu o riso, porque era um humor loiro, com um sorriso simples, contido, de áurea dourada. Não dava para rir disso.

Percebida, o que não era ela parou. Ela, parada, era a única coisa que mexia. Mexia. Ele não fez por querer, mas abriu as pupilas como nunca abrira e viu: ora um, ora outro, os fios de cabelo mexiam.

“Será que todos ainda riem?” Sim, sim. Todos riem, e ele vê graça, respira graça, diz graça; não consegue rir. Nada jocoso ali o remetia a algo mais que fosse engraçado. Todo o tédio e monotonia em que tinha transformado o resto do mundo eram-lhe úteis, fundamentais e evolutivos. Partes desse mundo desgraçado, ele e seu pensamento estavam congelados, fixados, enquanto estranhamente em taquicardia.

Notou que ficara surdo e mudo. Bastava, contudo, que a paralisia não o cegasse. E olhava. Olhava quando ela virou. Tê-lo-ia visto? Ela só virou. Mais: “Levanta e anda.” Ela vem. Vem. Veio e passou. Absolutamente nada aconteceu. E ela foi. 

ps:
- Várias pessoas me cobraram ter escrito sobre “mulher” no texto “Pelada”. Aproveito este post para quitar tal dívida, e este espaço para dizer que a culpa foi da Cléo Pires que gerou grandes e maravilhosas expectativas.
- Este post é dedicado a
Bernardo Carvalho e Leonardo Lacca.
- Agradeço muito a correção da amiga querida Ana Clara Reis Carvalho.

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