Valores, por Gustavo Fontes




Este texto vai para os que ainda são capazes de perceber todo o prazer que uma carta pode oferecer. Que sabem silenciosamente que uma carta (ou um bilhete escrito às pressas, colado na porta da geladeira), possui em sua concretude e gramatura, algo que nenhum i-meio pode conter (seja lá quantos ‘giga’ possam caber na mensagem).

Me refiro a um evento típico do mundo contemporâneo, de fulano se vangloriar por ter toda a discografia de sicrano, ou as obras completas de beltrano, sem ter fruído verdadeiramente nenhum álbum ou livro. Sim, por que o álbum ou o livro, estes sim, são uma obra completa; desde seu momento de criação e produção, até o produto final. É neste formato em que uma obra é inscrita no tempo (histórico\político) do artista, e sua relação (sociológico\afetiva) com o espaço. Mas a névoa que paira sobre o mundo da informação instantânea, não permite ver que tudo está despedaçado.

Meus queridos hermanos, é preciso lembrar que o ‘ser humano’, seja lá o que for, em qualquer plano que se supor, não deixa de ser um animal bípede: arredio e irritadiço; ou dócil e traiçoeiro; eu particularmente prefiro os primeiros...mas isto não vem ao caso.

Uma coisa ainda vos digo: ai daquele que tem repugnância de se reconhecer também como bicho, como animal! Pois isso mais que frescura, é fraqueza!

Mas afinal, a verdadeira questão, é que este ego atual (ocidental), hoje globalizado, fundamentado na liberdade individual para o consumo de Cristo, ou, quer dizer, para o consumo cristão; ou, melhor ainda, para o consumo de tudo – e depois que venha o Apocalipse, ou a Redenção! Que dá no mesmo pra quem tá na beira do precipício...O fato é que o arquétipo do ego atual, global e ocidental, se encontra constantemente insatisfeito. E por isso se apossa arrebatadora e inescrupulosamente de qualquer novo prazer que se apresente em seu horizonte. Que lhe proporcione ao menos um tímido vislumbre do que seja a saciedade.

Para ilustrar,  o ilustre Nietzsche:

“Durante a Chuva. Chove e penso nas pobres pessoas que sobraçam neste momento seus problemas numerosos e que são destituídas do hábito de ocultá-los, cada um pronto e disposto a fazer mal ao outro e a se criar, mesmo durante o mau tempo, uma miserável maneira de bem estar. Esta e tão somente esta é a pobreza dos pobres.”

E acredito que o fato desta busca desesperada por ao menos um ‘tímido vislumbre do que seja saciedade’, que faz com que a combinação química chamada crack (ou óxi), seja capaz, hoje em dia, de viciar desde a primeira experiência. Trata-se da busca desesperada por uma, mesmo que miserável, maneira de bem estar!
Oh miséria humana que a tudo ânsia! Pois terrível é o flagelo do consumo insaciável, insustentável enfim! E assim seguimos nos embrutecendo!

A questão é que esta eterna competição tem nos custado muito caro, batendo cabeça. Ê vida de Gado! Tangidos por um sistema que a todos deixa inseguros. E se a alguns promete futuros...a muitos outros, não.

Sim, porque vai ser uma fatalidade se um dia você for surpreendido na frente do seu prédio, e levar bala. Uma fatalidade que o larápio estivesse desesperado, talvez drogado, nóiado; uma fatalidade que tenha tido uma infância na penúria, enquanto seu condomínio custe cerca de R$1.000,00 reais por mês. Ou que ele e sua família não tenham onde morar, nem o que comer direito, enquanto a cachorra da sua mulher, entre ração, tosa e depilação, gaste cerca de R$600,00 reais por mês. Uma fatalidade que o plano de segurança da sua cidade, ou Estado, não preveja a ocupação dos jovens de periferia: nem seu recreamento, nem sua profissionalização; e os deixem lançados ao consumo ‘impossível’, imposto pelos meios de comunicação. E com isso o sistema administra a todos na angústia e na insegurança. Os valores, meu Deus, os valores... onde estão? E constroem-se assim uma série de posturas e imposturas que, enquanto práticas cotidianas, subtraem o autêntico Ser (espontâneo), em prol de um parecer socialmente idealizado, que é insustentável interiormente: inquieto, amargurado, preso na moral do ressentido, submerso na dinâmica do pecado, da hipocrisia, e da expiação.

E apesar deste flagelo do consumo insaciável ter assolado o mundo, pode-se perceber seus limites...e apartir deles, as possibilidades de libertação. Pois foi apenas há alguns séculos (não mais do que cinco, ou seis), que o motor da história tem sido a cobiça, e o saciar de vícios.

Pois foi ou não foi a busca dos temperos asiáticos e indianos que trouxeram os europeus para a África e América? E então, Fiat moternitas! (fez-se a modernidade!). Desde então, as taxas globais de açúcar, café, tabaco e álcool; nunca mais foram as mesmas (todas refogadas no mais lucrativo tempero da história: o sangue índio e negro, e de todos os colonizados e degredados pelo sistema ‘moderno’).

Buscamos o novo homem, que reintegre a completude que os antigos tinham com o seu meio, sem negar os adventos do mp3 e da bicicleta (sim, a bicicleta: uma das melhores máquinas já inventada pelo homem!); dos tablets que podem conter bibliotecas.  Mas primeiro, temos que garantir que todos dominem bem a técnica mais elementar e emancipadora já criada pela humanidade: ler e escrever.

Os valores meu Deus, mais uma vez os valores: estão todos invertidos!

Por último e para deixar claro, só o que nos interessa quanto aos valores antigos é que os textos sejam lidos; que as músicas sejam escutadas; e que o homem sinta gratidão e respeito pelo meio. Pois nosso horizonte é revolucionário, e a meta é que sejamos todos iguais em liberdade e saúde, em possibilidades para o diálogo.

Pois ser humano é bicho, e o espírito está no estômago.

Salve Sidharta Gautama (o Buda)! Salve Nietzsche!  Salve Josué de Castro!

Três vezes salve!

Autor: amigo querido, Gustavo Índio Fontes - fontesholanda@gmail.com

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