Fios de costura

Fios de costura (ou Fiar e costurar em 12 versos livres)


No papel já aparece
a saliência dos passantes firmes
costurados em travete.

Quão delicada a agulha que o vestido tece
e chega até as bainhas finais em harmonia.
É com tecido de rara linha que se reveste
do frio toda a alma em calmaria.

A veste só com fidúcia cresce,
e os trajes revelam as diferenças de cada dia.
Então em que mudança há de se investir
antes que nada mais reste
senão naquilo em que há biografia?

Comentários

  1. Queria escrever algo bem bonitinho agora, mas só penso: Que texto arretado!

    ResponderExcluir
  2. "Aprendi novas palavras e tornei outras mais belas", falou Drummond na Canção Amiga. Não conhecia a tal "travete" e confesso que soprou em mim o milagre da vida que a palavra poética é capaz de operar. A delicadeza do tecido que, competindo com o medo de sua própria destruição, exige a firmeza dos pontos em zig-zag... o duro trabalho em lapidar a palavra que insiste em precipitar-se ao desgaste cotidiano. Trabalhamos obstinadamente na construção do verso mais perfeito, a rima mais rica, mas em poesia há sempre algo que violentamente foge ao nosso controle, que ultrapassa a nossa própria medida, que apresenta o desequilíbrio, que instaura o caos, que comunica a desarmonia que ameaça as bainhas cuidadosamente cosidas... É quando a poesia se remenda com a vida,quando ela própria se inscreve no difícil jogo da metalinguagem, sussurrando sempre no nosso ouvido que o que temos pra hoje são apenas rimas pobres... Mas só através do reconhecimento da precariedade poética que as rimas, mesmo que pobres, também se fazem livres para compor novos versos livres, novas fidúcias em meio ao abismo informal existente entre uma palavra e outra. Tua poesia tem a milagrosa capacidade de preservar a memória... Mesmo diante do caos, os teus versos não se privam de reconhecer a delicadeza da agulha e rara linha do tecido "que se reveste do frio toda a alma em calmaria".

    ResponderExcluir

Postar um comentário