Pés furados: um conto freudiano




Ele partira e partiu-se. Resumidamente, essa é a sua história. A única que tem hoje na memória e diz: “Parti e parti-me”.

Algo do ventre clamara seu papel ambivalente de primogênito-provedor. Mesmo assim ele decidira ir e, pela primeira vez, viajara à noite. Não fora a distância que o amedrontara, mas a escuridão em si, a falta de clareza. Nunca confiara na luz da lua.

Tudo muito simples. A viagem se realizara a pé, com uma lamparina e dois amores. Entretanto, toda viagem é longa quando não se pretende voltar. E isso ainda o deixara inseguro. Lampejos de impermanência. Os tempos mudam.

Não viajou sozinho. Tinha ambas as mãos dadas. Se não enxergava por onde percorria, que ao menos sentisse na pele as duas razões de todo esforço. Como poderia saber seu destino? Convenceu-se que a estrada pouco importava e pela primeira vez ousou não tornar seu coração comedido.

Passaram-se meses até que o percurso chegasse ao fim. Os pés sangravam. A descoberta que não há meios de viajar sem dor escorria rubra pelo chão. Sua única companhia era a concretização de seu próprio medo, temperado com requintes fleumáticos. Pior, não havia rastros que o levassem facilmente ao ponto de partida. Mas não podia esperar. Agachado, rebaixado, agarrava-se aos pés furados que só podiam ser os seus.

Seu desamparo se espraiou pela obscuridade que agora era toda sua vida. A paixão que o encorajou a solver o enigma existencial foi a causa da sua cegueira. Delirante e irreconhecível, o homem seguiu seu destino: não morreu. Antes disso, mãos calejadas que jamais havia sentido o ergueram e guiaram. Eram anjos. Teria ainda alguma dignidade para sofrer aqueles tormentos? Ele teve alguma fé.

Agora não importava mais as condições da via de retorno. Não era sua decisão. Era seu fado, seu fardo. Trouxe o escuro para dentro de si, e essa foi a forma corajosa de sublimá-lo. Secretou-o em seu fígado e se pôs em marcha de regresso. A segunda jornada era a volta ao seio de sua identidade. O que não podia mais ver, passou a identificar pelo cheiro. Estava absolutamente só, exceto pela companhia de seres fantásticos. Reencontrou os entes de sua criação.

De volta ao lar, deixou os cômodos com todas as luzes apagadas. Lá fora toda via brilha. Pronto para viajar, finalmente.






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