O monstro de olhos verdes




A honra é uma essência que não cai na vista.
Muitas vezes a tem quem nunca a teve.
Mas quanto ao lenço...
- Iago, em "Otelo"

Nascido no início dos tempos humanos, o monstro é todo impureza. A beleza dos seus olhos fascina quem avista e ofusca a deficiência daquele imenso corpo disforme e enrugado. Uma deficiência que o torna dependente. Exige que se ligue a algo muito forte, capaz de sustentá-lo. Ele precisa de uma bengala de diamante, sublime.

De posse do apoio fundamental, caminha inicialmente a passos lentos, como um idoso. Mas ao contrário do ciclo natural da vida, com o tempo rejuvenesce, fortalece-se. Começa a caminhar cada vez mais acelerado. Como todo jovem, quer ser livre.

O monstro deseja correr, espera se livrar de seu suporte etéreo. Nega a todos sua condição de parasita. Mas à medida que a velocidade aumenta, a bengala pressionada se desgasta mais e mais. O monstro, contudo, não percebe que jamais poderá seguir sozinho. Não conhece as suas limitações. Não entende que, sem aquele objeto, ele não cresce nem existe.

A sina do parasita é destruir o hospedeiro e a si mesmo. A bengala envergada não o assusta porque não consegue mais vê-la com sua cabeça nas nuvens. E corre cada vez mais para exibir sua vitalidade e poder. Derruba tudo em volta nessa sua corrida de trajetória torta, hadesíaca e solitária. Nada é resistente à força destruidora de seu peso.

A salvação é não precisar resistir. Jamais deixar que o monstro chegue perto da bengala. Conservá-la em segurança. Existem outras criaturas já encarregadas do encontro entre qualquer percurso e a inescapável finitude. Todas as demais, até mais perigosas, no entanto, são imunes a precauções. Apenas o monstro de olhos verdes nasce e morre dentro de nós.


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Comentários

  1. Fiquei curioso pelo filme e a causa de sua inspiração enigmática! Eu jurava como você estava falando do Estado!

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  2. Haha! O E(e)stado não tem me inspirado.

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