Um retiro




“Duas mãos batem palmas e produzem som.
Que som faz uma mão?”
– antigo ditado do Zen-budismo.


Nunca quatro dias foram tão preciosos. Numa jornada silenciosa de estudo, olhares, fraternidade intensa e muita meditação, guiada por um guru sensível, profundamente estudioso, genial, generoso, experiente, humano, nessa odisseia até atrás da cachoeira do ego, pude sentir um pouco mais da imensidão do real. O caminho é tão longo quanto sedutor e inevitável para mim. Longo pela dificuldade de se manter nele, e sedutor pela felicidade de tê-lo percebido. Sem palavras. Aprendi muitas coisas, algumas das quais quero partilhar para que sejam mais úteis. Foram cinco descobertas importantes pra mim, não necessariamente novidades. Como um dia já concebemos mentalmente um beijo sem nunca termos beijado, as descobertas do que aparentemente já sabemos é algo possível.  A maior dificuldade será usar palavras para descrevê-las, mas essa é a condição do que se deve fazer com todo conhecimento:

1) Sempre há o que fazer a respeito de qualquer problema que nos chega à consciência. Mesmo que de pequena proporção ou num momento futuro, é possível realizar um encaminhamento em vez de não agir. Todo sentimento de impotência é uma forma de evitar outro incômodo maior para nós mesmos. Incômodo este que nosso ego não quer admitir porque macula nossa autoimagem positiva.

2) O tédio é uma das piores doenças. É a falta de graça naquilo que se repete, no cotidiano. Mas a imaginação é um antídoto possível. Lembre quando você era criança e transformava situações e objetos banais, sem graça, em entidades mágicas, vivas e vibrantes. Você sentava numa cadeira, e estava pilotando um avião. Você olhava para sua boneca, e ela era sua filha, sua irmã, sua amiga. "Quando as pessoas definem uma situação como real, ela é real em suas consequências", escreveu certa vez Willian Isaac Thomas, um cientista cuja obra estudei em minhas pesquisas na universidade. Se o trânsito lhe prende, imagine-se solucionando todo atraso na vida de milhões de pessoas. Se ainda não sabe como, não tema. Fantasie! Esse é o primeiro passo para a concretização da vida no momento presente. A realidade, quando nos incomoda, está pedindo para ser transcendida. Nunca podemos abrir mão da nossa imaginação para viver o presente, porque é ela que anima o ser dentro de nós e, em seguida, todo o mundo.


3) Não existe separação. Boa parte de todos os corpos flui de um para o outro o tempo todo. O principio básico da existência no universo, tanto para os seres vivos quanto para todo o restante da matéria, é a transformação a partir de rearranjos e recomposição. A ideia de unidade separada é ilusão, é nossa forma primária de entendimento, mas o amadurecimento e a calma nos conduz a desconfiar, primeiro, e depois perceber a integração completa. Toda existência está em processo, é processo. Há fortes evidências que toda vida na Terra foi gerada na água em maior proporção e também em outras substâncias ácidas em estado líquido, como fontes sulfurosas do parque de Yellowstone . Isso implica que o que consideramos como vivos são provenientes de objetos não vivos. E inevitavelmente perguntamos: existe algo que não esteja vivo pelo menos em potencial? Nossa dependência completa da luz solar e, posteriormente, da água e dos alimentos, e mais tardiamente da linguagem, não deixa qualquer dúvida sobre a conexão entre tudo. Somos duas pedras que evoluíram a ponto de tomarem consciência de si e conversarem, brinca o guru.

4) A mais preciosa joia de conhecimento desses dias foi a tranquilidade com que a mente pôde entender sua limitação cognitiva. Temos mais capacidades para formular perguntas que encontrar respostas sob os mesmos critérios com os quais as perguntas aparecem. Não é possível questionar sem palavras, mas a serenidade da Verdade que liberta pode vir de forma inefável, puramente intuitiva. Dentro de uma estrutura tão subjetiva assim, todo nosso critério de validação lógica ou experimental deve seguir, sempre adiante, buscando, porém com muita humildade. Nossa limitação também é evidente. Basta, como ensina o guru, a criação mental de imagens para esbarrar em nossa limitação cognitiva. Pense numa reta horizontal num papel. Sua mente entende claramente um objeto projetado em uma dimensão. Agora cruze essa reta com outra e forme um ângulo reto. Temos facilidade em compreender duas dimensões do espaço. Agora insira uma terceira reta que fure o plano bidimensional e perceba as três dimensões. Convido agora o leitor à quarta dimensão do espaço, o tempo. Você não consegue mais associar imagens de retas, mas consegue senti-lo intuitivamente. Não vou solicitar mais nada, porque se tornou evidente o que queria mostrar. Então lembro quando o guru nos trouxe um artigo científico cujo autor, um pesquisador da área de Física, obteve fortes corroborações para a hipótese que o universo do qual somos uma parte possui 10 dimensões ao todo... Por mais que não consigamos imaginar, todas as letras deste texto possuem 10 dimensões no espaço. Assim como seu computador e seu pensamento neste momento. A ciência é belíssima. Com ela, os ensinamentos do budismo, e a vivência das alterações do estado da consciência por meio da meditação, sinto-me como um sereno observador que reorganiza suas simplórias capacidades cognitivas para ver, sem ver, tudo que jamais saberei. A alegria vem da certeza que, de alguma forma, o universo me deu o direito de buscar a Verdade. Tenho uma missão para a eternidade.

5) Não há maneira melhor de se sentir bem que fazendo outras pessoas se sentirem exatamente dessa forma em todas as oportunidades em que um ato de amor for possível. Amar é servir.



ps 1 - com imensa gratidão ao irmão de muitas vidas, educador e guru Fábio Hazin.

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Comentários

  1. "A realidade, quando nos incomoda, está pedindo para ser transcendida.", colocaria isso na minha cabeceira. Sempre me esqueço de exercitar a espiritualidade, isso dá contratura de espírito, fica entrevado. E quanto menos a gente faz, mais a gente se acostuma com a nossa limitação. Se a nossa excelente Física enxergou apenas 10 dimensões, imagina a gente no dia a dia, em meio a whatsapps e engarrafamentos?
    Fico só desconfiado com essa verdade com V grande, porque assim existiria a Mentira, e conheço tudo no plural. Massa, me senti bem, abraço!

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    1. Meu amigo querido, muito obrigado pela leitura atenciosa. Sobre o V maiúsculo, foi para enfatizar que, apesar de reconhecer a pluralidade, nós só podemos atingir uma verdade particular, a verdade do nosso Eu, a nossa essência por trás da ilusão do ego.
      E como saber se atingimos essa Verdade? Se tivermos, dizem, uma completa sensação mística de liberdade. Ou, como falam os budistas, de "iluminação", que não se deve confundir com perfeição. Todos teríamos condições de atingir a iluminação apesar de carregarmos tantos defeitos.
      Outro abraço, Alfredo!

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  2. "para ver, sem ver, tudo que jamais saberei". A melhor frase deste texto, de uma profundidade que só a mente mais leve e aberta pode entender. Estamos tão enquadrados nesta vida...tão cheios de ordens e padrões, tantos preconceitos. Ser criança novamente para sentir o mundo mais do que entendê-lo. Na realidade, um entendimento diferente o que elas têm. O entendimento com alegria. Estamos carentes disso.

    Um beijo Romero.

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