Só eu não entendi bem o "15 de março"?



"Não são as coisas que ignoramos que nos atrapalham,
Mas as que conhecemos." - Artemus Ward




No início deste mês de março, fiquei preocupado com a crescente agitação política em prol da volta de um governo militar. Uma agitação tomada por sentimento de hostilidade, nutrido intensamente por pessoas, observava eu, que gozam de um ótimo padrão de vida no Brasil, sem quaisquer problemas alimentares. Vale dizer que se movem da inanição pelo ódio justamente por se encontrarem perfeitamente nutridos, embora grande parte padeça vítima de falta d’água na maior cidade do país. Mas isso é outro assunto, e estou aqui para tratar do governo federal. Então, ao mesmo tempo, também fiquei impressionado com a persistente e interminável cobertura jornalística, sobretudo da Rede Globo e da Revista Veja, sobre o “caso Petrobrás”.

Ambos os acontecimentos, a agitação e a roubalheira, podem estar correlacionados, pensei. E mais: podem ter razão. Decidi, então, pesquisar se alguém havia sistematizado dados comparativos a respeito da qualidade da gestão econômica e seu nível de corrupção. Como nenhum dos contatos da minha rede social fornecia essas informações objetivas durante suas imensas discussões, decidi verificar, por mim mesmo, a evolução de indicadores fundamentais da atividade econômica e bem-estar que possuem alguma dependência com as competências da União.

Deu algum trabalho e precisei fracionar a busca por dados em cerca de 15 dias. Terminei e fiz uma coletânea de cinco postagens de gráficos que intitulei “Séries históricas esclarecedoras”, porque nem eu mesmo sabia a que conclusões iam me levar. Esta publicação no Despertador tem a função de concentrar essas informações num único lugar aberto a todos na Internet, no intuito que cada um, ao conhecer os dados, possa tirar suas próprias conclusões.

A primeira e mais importante série histórica que deve ser considerada é uma que já foi publicada antes, pioneiramente, por este blog. A publicação anterior pode ser vista na íntegra aqui. Mas vale uma atualização: em 2014, a Transparência Internacional aumentou a nota do Brasil para 4,3. (a melhor nota é 10). Em geral o Brasil é percebido internacionalmente como um país bastante corrupto, porém estamos numa situação bem menos lastimável que na década de 90. Na verdade, melhor que em qualquer outra época já medida e, vagarosamente, melhorando. Esse dado de 2014 me deixou surpreso porque me faz lembrar, apesar dos jornais e entre outras coisas, que o país é maior do que o sórdido episódio da Petrobrás. Segue o gráfico abaixo (fonte - Transparência Internacional):


A segunda série que vale a pena ser levada em consideração é a que trata do custo do dinheiro no Brasil. Há de se pesar que uma taxa Selic muito baixa eleve o risco de inflação grave. Já uma taxa Selic alta demais, pára a economia. São feitas reuniões para defini-la porque de fato é uma decisão que depende de informações variadas, umas precisas outras privilegiadas. Mas de maneira geral, uma boa economia possui uma taxa de juros baixa. Neste momento os EUA praticam uma taxa de juros de 0% a 0,25%. Em 2008, na crise chegou a quase 6% no intuito de reatrair capitais. Em 1991 era 8%, a pior da série histórica. (fonte - Banco Central):




A terceira mostra a diminuição drástica, hoje, da dívida externa do país desde a ditadura militar. Com evidentes movimentos de inflexão nos momentos de transição de poder presidencial. Cinco anos depois da mudança de orientação política do Executivo Federal, o Brasil passa a ser credor externo pela primeira vez na História. Mas existe sempre um “mas” e analisaremos depois do gráfico abaixo que mostra a dívida externa bruta em percentual do PIB (fonte - Banco Central):





Vários economistas têm argumentado que o que o governo federal fez, desde 2003, foi apenas trocar o credor para sua dívida. Hoje, seria a dívida interna bruta que colapsaria a saúde financeira do Estado. De fato, os órgãos federais de controle, como o Banco Central, pecam na transparência necessária acerca da divulgação dos dados da dívida interna bruta. Acredito que não existe na web forma rápida e direta de avaliar a dívida mobiliária bruta de maneira clara e, o principal para o momento político do país, de maneira comparável com os anos 90.

No site do Banco Central é possível fazer uma série histórica que compara a dívida líquida do setor público em percentual do PIB entre as décadas de 1990 e 2000. Mas o dado da dívida bruta do setor público não está disponível para mesmo período. Com relação à dívida externa e interna, a primeira, que caiu muito, pode ser analisada no site com facilidade. Já a segunda não está disponível. O interessado tem de ir atrás de outras bases de dados, baixar várias tabelas diferentes e harmonizá-las. É tempo... Por outro lado, a razão boa para a dificuldade de achar os desafios deste governo foi que, ao superar esses contratempos e me deparar com os resultados dos cálculos, vi que a dívida interna bruta até 2013, considerando títulos fora do Banco Central, não atingiu um patamar acima do que já vivemos no passado. Por que não considerei os títulos que estão no Banco Central? Porque como a série estranhamente termina em 2008 e os montantes anuais são bem menos expressivos, isso comprometeria o que considero mais importante: termos uma série histórica com regularidade metodológica e que chegue o mais próximo possível do presente (fonte - IPEA):





A quinta e última série histórica mostra se a União realmente inchou o Estado brasileiro. O que daria, por isso, bons motivos para se advogar que o atual governo federal é ineficiente e gastador. Mas tal acusação também não encontra amparo nos dados quando cotejada com a experiência que já tiveram os grupos políticos que pretendem retomar o poder. O percentual da dívida representada pelo setor público é simplesmente o menor já registrado. O gráfico abaixo mostra a evolução trimestral da dívida bruta do setor público como percentual dívida total (fonte - Banco Central):




Fui surpreendido pela enorme dificuldade para encontrar séries que atestassem claramente piora nesta gestão e, consequentemente, desafios para o governo atingir patamares obtidos nos anos 90. Em geral, sempre que se observa a evolução de um indicador, melhoramos. Arrisque desenvolver séries de redução da pobreza, desigualdade e até notas do Brasil no Pisa. Pode-se pensar que todas essas bases de dados, da Transparência Internacional, do IPEA e do BC, foram adulteradas pelo serviço secreto brasileiro a mando de Dilma, ou... Bem, conspirações desse nível são tão complexas e arriscadas que eu escolho descartá-las. O que me restou, para entender o que aconteceu ontem nas ruas dos bairros nobres do Brasil, foi assistir a um vídeo que apresenta a tese do historiador Renan Vega Cantor sobre “Revoluções Coloridas”, porque o preto no branco dos dados me deixou bastante confuso. Vejam o minidocumentário "O negócio da revolução" (27 min.) e reflitam se só eu mesmo não entendi bem o 15 de março.

Fui surpreendido pela enorme dificuldade para encontrar séries que atestassem claramente piora nesta gestão e, consequentemente, desafios para o governo atingir patamares obtidos nos anos 90. Em geral, sempre que se observa a evolução de um indicador, melhoramos. Arrisque desenvolver séries de redução da pobreza, desigualdade e até notas do Brasil no Pisa. Pode-se pensar que todas essas bases de dados, da Transparência Internacional, do IPEA e do BC, foram adulteradas pelo serviço secreto brasileiro a mando de Dilma, ou... Bem, conspirações desse nível são tão complexas e arriscadas que eu escolho descartá-las. O que me restou, para entender o que aconteceu ontem nas ruas dos bairros nobres do Brasil, foi assistir a um vídeo que apresenta a tese do historiador Renan Vega Cantor sobre “Revoluções Coloridas”, porque o preto no branco dos dados me deixou bastante confuso. Vejam o minidocumentário "O negócio da revolução" (27 min.) e reflitam se só eu mesmo não entendi bem o 15 de março.





Ps - peço perdão pelos gráficos não seguirem o mesmo modelo. Ao achar um gráfico pronto no site do Banco Central, eu não podia perder tempo remodelando-o. Infelizmente, não vivo de alugueis, juros e nem de atividade política.


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Comentários

  1. Texto ótimo e bem fundamentado. Como sempre!

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  2. Caro Romero....conheces uma senhora chamada teimosia? Todos tem uma para chamar de seu, mas outros extrapolam até dizer chega! Seu texto, contradiz tudo o que vemos hoje na mídia, em conversas de bares, assuntos na academia...a senhora teimosia ou sei lá o que, não gosta de números. Números mentem. Como exemplo, cito o que acontece hoje após as manifestações...quem defende ainda o governo (mas com consciência que muita coisa tem que melhorar e muito) e cita que o que precisamos é de uma reforma política, ouve que dos "paneleiros" que eles jamais deixarão o partido ladrão fazer a reforma. É como colocar os presidiários para reformular o código penal... Pois é, quando querem um bode expiatório, quem for eleito será e pronto, nem números, nem coesão, nem sensatez. Me pergunto se temos uma sociedade que prefere a reflexão profunda dos acontecimentos, a ponto de mudar dogmas e conceitos ou a velha e "boa" sociedade do espetáculo. Quem souber, morre.

    Você não poderia voltar a escrever num momento melhor!

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    1. Perfeita sua análise Patrícia, as pessoas só querem ouvir ou ler o q as convém. Abraços.

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  3. Adorei o texto Romero, fluido, conciso, didático e esclarecedor. E gostei dos resultados de sua pesquisa. Pesquisa a qual confio, por conhecer sua imparcialidade.

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  4. Obrigada Isabella. Indico aqui a leitura sobre os últimos acontecimentos da jornalista, a minha mais nova amada (kkkkkk) Eliane Brum: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/03/16/opinion/1426515080_777708.html

    vale demais a conferida!

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  5. Grande Roma:
    Devo concluir a partir desse seu texto que cometemos uma monstruosa injustiça com Fernando Collor de Mello?
    Miguel Falcão

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    1. Não. Este texto apenas elucida que, de fato, houve o erro clássico, provavelmente intencional, de omissão na cobertura jornalística; e revela tb que, por outro lado, existe alguma dificuldade de acesso a séries históricas de dados econômicos. Este post é uma tentativa de mostrar que há uma chance clara das pessoas estarem sendo manipuladas quando "compram" uma versão noticiada do contexto político da União que está repleta de omissões e distorções, desenhando um país pior hoje que durante o governo do grupo do Aécio. Aproveito o ensejo para dizer que apoiei o Eduardo Jorge no 1 turno que, por sua vez, apoiou Aécio no segundo. E que nao sou filiado a partido político algum. Nunca fui. Em política, funciono mais ou menos assim: dê-me os dados, que eu terei minha opinião. No caso, não considero interessante um retorno dos grupos anteriores ao poder, tanto os militares quanto o PSDB. Para conclusões sobre o caso Collor, recomendo ler: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-64452011000100008&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt
      abraço!

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