Ainda conseguimos prestar atenção em alguma coisa?



"A atenção é a mais importante de todas as faculdades para o desenvolvimento da inteligência humana."
Charles Darwin




Ter percepção das coisas ao redor, palavra muito usada em diversas áreas do conhecimento, como a Economia e seus estudos sobre a percepção do consumidor, e na Sociologia sobre a percepção da violência. Também muito atual nos meios de comunicação quando apresentam notícias infelizmente corriqueiras sobre a percepção da corrupção. Esse uso disseminado raramente é acompanhado de uma definição clara do que vem a ser esse processo cognitivo no ser humano. Existe uma pressuposição velada de que é óbvio que todos sabem o que seria percepção. Qualquer forma de estar atento a algo? Um jeito informal de reconhecer a existência de um fenômeno? Um nível de valor atribuído a determinado fato? Na verdade, o que interessa é a atenção.

Todas essas perguntas se misturam no largo de vários artigos publicados no campo da Psicologia Cognitiva. Todavia, temos condições de definir essa capacidade humana enquanto um processo específico, e integrado com outros, como a memória. Temos que tratar processos cognitivos de forma integrada, mostrando também como até mudanças culturais podem interferir na calibração ou condicionamento desses mecanismos.

A percepção refere-se ao recebimento das influências físicas ou químicas de um organismo através dos órgãos dos sentidos. Além disso, a detecção de processos internos também pode ser classificada sob este conceito. Portanto, na literatura temos dois tipos: a percepção interior e exterior. A seleção de conteúdo é sempre devida a vários fatores. O mais importante, como já dissemos, é a atenção. E que uma vez danificada pelo ambiente pode causar danos sérios a saúde mental de qualquer ser humano. E essa é a razão de ser deste artigo.

Não se pode negar que também o interesse e motivação, experiências de aprendizagem anteriores e expectativas possuem uma forte influência sobre o que é percebido. Mas a atenção, o foco orientado intencionalmente ou arrebatado exteriormente, é quem seleciona sobremaneira a parcela da percepção que será registrada pela memória.

A percepção e memória são consideradas os fundamentos do conhecimento. Essas áreas da psiquê humana podem ser alteradas por doenças e outras influências, como uso de substâncias psicoativas, de modo que delas podem surgir ilusões ou alucinações que possuem a capacidade de se estenderem a todos os sentidos. Isso tem implicações diretas sobre o processo de atenção. A depender da enfermidade ou ingestão de substâncias, é possível haver deficit na atenção ou grande acurácia. Contudo, em condições tidas como normais, certos tipos de estímulos prendem a atenção por várias razões.

Vê-se na literatura especializada que a intensidade, a duração, a repetição, a subitaneidade, a novidade, o movimento, a incongruência e o contraste entre estímulos pode capturar externamente a atenção. Os órgãos sensoriais do seres humanos estão preparados para capturar estímulos de intensidades variáveis. Esses estímulos podem receber três tipos diferentes de atenção. Evelina Neves et alii em seu trabalho “Atenção Visual Seletiva para Reconhecimento de Objetos e Análise de Cenas”, identificou o primeiro deles como atenção “de baixo pra cima”, que é aquela que nos capta a partir do meio externo e de forma bastante difusa, circunstancial.

A outra seria justamente o contrário “de cima para baixo”, que seria a atenção derivada da nossa volição, da intenção do sujeito de dedicar seu foco e varia com o amadurecimento cerebral. O último tipo de atenção seria a do “domínio-específico”, que mobiliza várias órgãos do sentido para mergulhar numa situação por completo, e não apenas ficar num estado de vigília com relação ao objeto da atenção; o cinema e a música são exemplo de estímulos que podem arrebatar completamente a experiência viva do sujeito.

Quando os estímulos são fracos, é requerida uma maior atenção para percebê-los. Um lapso momentâneo da postura atenta pode interromper a sensação. Então acontece a chamada flutuação da atenção. Há intervenientes culturais que geram flutuações locais e intergeracionais na capacidade de manter a eficiência na atenção, embora saibamos que perdas de atenção na percepção visual podem estar atreladas à postura, mudanças na retina, na atividade respiratória etc.

Mas com relação aos fatores culturais, a mudança histórica que ocorrera no séc. XX acerca da estimulação sensorial de populações inteiras por meio dos meios de comunicação alterou sensivelmente a capacidade de manter atenção. E esse é um dos mais fortes indícios de que a atenção, em seus estados de vigília e focalização, são condicionadas pelo ambiente.

As respostas aos estímulos tentem a acompanhar, adaptar-se à velocidade com que eles são emitidos. Se há uma avalanche de estimulação direta e passiva, como o caso da socialização sob forte influência da TV, existe grande chance se perder momentos propícios de maturação cerebral para treinar a atenção sob atividades que exigem mais ação e focalização. Tanto que tal evidência foi transformada em uma recomendação formal da Academia Americana de Pediatria para que os pais não exponham seus filhos à televisão no mínimo até os três anos incompletos:

Foram pesquisadas 1.345 crianças de um a três anos de idade. De acordo com informações fornecidas pelos pais, aproximadamente 36% das crianças de um ano não assistiam nunca à TV, enquanto 37% assistiam de uma a duas horas por dia e por isso possuíam um aumento de 10 a 20% de chances de desenvolverem problemas de atenção. Nas crianças de três anos, apenas 7% não viam TV e 44% assistiam de uma a duas horas por dia. O resultado da pesquisa sugere que o hábito de ver TV superestimula e modifica o desenvolvimento normal do cérebro de uma criança. Entre
os riscos encontrados estão dificuldade de concentração, impulsividade, impaciência e confusão mental.” (2007).

É importante ressaltar também que dessa pesquisa concluiu-se que o fator que desestrutura a construção saudável do processo de atenção independe do conteúdo a que a criança está submetida. O problema é a rápida superposição de elementos visuais, típica dos programas de televisão. O cérebro de uma criança se desenvolve muito rapidamente durante os primeiros três anos de vida. Ele realmente está se conectando e se adaptando a um “ritmo” do mundo (ambiente) neste período de vida.

O mesmo problema pode ser estendido hoje às redes sociais. A TV não é mais a rainha do lar (do ambiente), mas a concorrência não é menos danosa para o desenvolvimento saudável. Pesquisas apontam que 25% dos usuários do aplicativo de reprodução de músicas mais usado hoje em dia, o Spotify, pulam de faixa após apenas 5 segundos de execução do áudio. E o mais impressionante: metade dos milhões de usuários não conseguem escutar qualquer música até o fim, pulam antes do final. No YouTube, maior site de entretenimento por vídeo do mundo, a média de tempo que um usuário passa vendo uma transmissão é de apenas 90 segundos.

Esse diagnóstico deixa muito provável que as inovações tecnológicas nos ramos da telecomunicação mudaram o cotidiano da cultura e, com isso, a adaptação e modus operandi dos processos cognitivos. As pessoas se tornando (ou sendo tornadas) inaptas para qualquer processo que exija profundidade, reflexão. Nas redes sociais, um link dura em média 3 horas. Esse é o tempo entre ser divulgado, espalhar-se e morrer completamente. Se for uma notícia, o ciclo de vida é ainda menor, 5 minutos. Isso explica bastante das razões sobre as quais uma notícia falsa se espalha com tamanha facilidade.

O novo contexto social levou ao ápice uma velha companheira humana, a ansiedade. Esse cenário escapa da seara midiática e desaba sobre a vida real. De acordo com Tokuhama-Espinosa, na Revista IHU on line, em 17 Julho 2011, a atenção de um aluno hoje a uma exposição só dura, no máximo, 20 minutos. E essa marca tende a cair com o aprofundamento das dependências tecnológicas e a expansão das redes sociais. O transtorno de ansiedade, consequência intimamente relacionada a esse desequilíbrio perceptivo, não tem mais lugar ou acontecimento específicos para explodir na neuroquímica humana. Ele está é literalmente generalizado, como uma pandemia.

O ambiente hiperestimulante desestabiliza tanto a percepção quanto a atenção, e as pessoas nascidas neste momento histórico dificilmente são capazes de prevenção à exposição. É uma face da cultura, uma condição da nova realidade. Também não adquiriram preparo para um aprofundamento lúcido e crítico que pudesse levar a uma autocura consciente, um afastamento da dependência, num retorno ao que seria lidar com traços marcantes da vida durante séculos, a rotina, a monotonia, o silêncio, e raros momentos de grande visibilidade e poucas companhias.

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