A história da sua vida aconteceu mesmo?


"Ah, memória, inimiga mortal do meu repouso."
Miguel de Cervantes




Apesar de a memória ser um atributo cerebral intimamente relacionado à sobrevivência e à manutenção das nossas relações com os outros e até com os objetos, as pesquisas sobre sua fidedignidade às informações que ela é capaz de registrar e fornecer quando consultada são alvo de controvérsias.

A habilidade de guardar novas memórias, armazená-las por algum período de tempo útil, e rememorá-las quando precisamos agir pode ser resumida num processo trifásico de registro, armazenamento e resgate. O registro inicial pode ser classificado, segundo autor clássico, Sternberg, em seu livro sobre cognitivismo e neurociências, como armazenamento sensorial, armazenamento de curto prazo e armazenamento de longo prazo.

A maior parte das pessoas tende a acreditar que as informações que acessam na memória são indiscriminadamente factuais, principalmente quando formam narrativas que reconstroem o próprio passado. Em outras palavras, descrevem sua própria vida até o momento. Embora a memória possa ser, sim, factual com relação a alguns tipos de informação, ela apresenta tendências ao erro cada vez maiores à medida que a informação vai se tornando menos simples e objetiva como números de telefone ou senhas de banco.

O debate sobre a veracidade das memórias fica polarizado quando não se leva em conta que tipo de informação se quer acessar através dela. Dizer que todas as memórias são imprecisas implicaria que jamais conseguiríamos escrever palavras quaisquer sem nos depararmos com a dúvida de que letras usar. Mas pesquisas mostram que uma vez chegado num ponto de maturação da memória com relação à ortografia, a taxa de erros tende a ser constante ou apresentar progressão de melhoria, plasticidade, uma vez que aconteçam novos esforços de memória para mais aprendizado.


Por outro lado, há relatos seríssimos sobre a imprecisão da memória. O que torna o fenômeno complexo para nosso hábito de definir as coisas de forma dicotomizada, como se fosse só "lembrar ou esquecer". Há reconstruções "criativas" e distorções em nossa memória de maneira mais impactante do que costumamos conceber.

Um relato famoso, de amplo conhecimento do público americano, e que virou tema de documentário transmitido pelo FOX News em 2009, hoje disponível na internet em <https://youtu.be/3uN7mInREkw>, mostra como nossa memória pode ser extremamente falha e sugestionável.

Jennifer Thompson, uma então estudante da Carolina do Norte, em 1984, acusou e levou à prisão por 11 anos, Ronald Cotton, um homem inocente mas que ela tinha certeza que a havia estuprado face-a-face, munido de uma faca, e havendo ainda momentos de contato visual com luz acesa durante a noite de terror.

Nem mesmo durante os 11 anos ela titubeou sobre a identidade do estuprador (que continuou solto por algum tempo e nunca foi associado ao estupro) e passou seus dias com a sensação de justiça sido feita, e consciência tranquila. O ponto controverso e que torna complexa a nossa apreciação da memória é que o mesmo impacto emocional imenso que nunca mais a deixará esquecer aquele dia, foi também o fator responsável por deixá-la extremamente nervosa no momento em que a polícia a requisitou para reconhecer o estuprador em meio a 5 suspeitos.

Ela confirmou a acusação no tribunal, olhando mais uma vez para o réu, e este foi condenado à prisão perpétua, apesar de suas súplicas de inocência. Foram as experiências que Jennifer teve logo depois do estupro que a induziram ao erro. O suspeito inocente era de fato parecido com o criminoso que a estuprara. Mas o estuprador não estava entre os apresentados à vítima para reconhecimento.

Foi preciso que se passassem 11 anos até a tecnologia tornar possível que um fragmento de espermatozoide que restava nos arquivos do juri pudesse ser reivindicado pelo homem preso injustamente, para fins de provar que não havia sido ele o estuprador. Isso aconteceu, e ficou provado que o estuprador na verdade tinha sido um criminoso chamado "Bobby" Poole,
que também, a essa altura, 11 anos depois, já estava preso por outros crimes... E pasme, leitor, por coincidência, Bobby estava na mesma penitenciária de Cotton.

Esse fato foi tão sério que levou analistas de estatística a verificarem percentuais das falhas da memória em reconhecimento de suspeitos. Entre 20% a 25% das vezes, as vítimas fazem a escolha que a polícia sabe de antemão ser incorreta. E isso foi descoberto simplesmente porque os analistas passaram a sugerir à polícia que incluíssem no rol de suspeitos pessoas na função de "inocentes conhecidos" (pessoas que a polícia já sabe de antemão que não possuem envolvimento com o crime).

O desenvolvimento dessa pesquisa estatística mostrou também que mesmo quando os analistas colocam todos os "suspeitos" na função de inocentes conhecidos, mais de 50% das vítimas escolhem alguém como culpado, tanto por alguma suposta semelhança física com o verdadeiro criminoso, quanto pelo nervosismo da situação e ansiedade de colocar um ponto final na história. Nossa racionalidade e memória são recursos afetados por sérias limitações, ensina Daniel Kahneman. O que fica evidente é que nosso passado é, em grande medida, uma ilusão probabilística, cujas variáveis emocionais independentes possuem impacto preponderante no que pensamos que foi a nossa própria história.


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Comentários

  1. Muito bom o texto, Romero!
    Apenas uma sugestao: no trecho "documentário transmitido pelo FOX News em 2009, hoje disponível na internet em , mostra como nossa memória" faltou o link para o acesso disponivel na internet.
    Um forte abraço, amigo!

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  2. "A memoria é uma ilha de edição", editada por experiências, sensações e emoções...

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    1. Num texto anterior, sobre o dharma, a gente falou desse protagonismo das emoções no presente, passado e futuro. Vc está certíssima sobre a "matéria' com que é escrita nossa memória.

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  3. Excelente reflexão, Roma! E o comentário de Malu, da memória como uma ilha de edição, o resume bem! Me fez lembrar um comentário de Jim Carrey, que recentemente surpreendeu a todos ao afirmar que não existia! Disse ele sobre quem era que aquele quem acreditamos ser não passa de um imenso colar de contas fictícias de pensamentos unidos pelo fio tênue da memória... Ou algo assim... Se é que não me falha a memória... 😄😄

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    1. Aquele documentário a obre o j carry é fantástico. Vi hoje. E a piadinha da memória foi ótima. (:. Muito grato pelo seu tempo de leitura , mestre irmão de muitas vidas.

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    2. Aquele documentário a obre o j carry é fantástico. Vi hoje. E a piadinha da memória foi ótima. (:. Muito grato pelo seu tempo de leitura , mestre irmão de muitas vidas.

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  4. Oi Romero!
    No video que vc indicou, todos os suspeitos são negros, ou foi impressão minha???

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    1. Não foi impressão. Todos são parecidos com o retrato falado feito pela vítima.

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