Post quinquenal (in memoriam)

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Hoje, meia década depois, algumas pessoas pelo mundo relembram a morte do economista monetarista Milton Friedman. Ele sempre foi um convicto da ineficiência da intervenção dos governos na economia. Certeza essa que provavelmente possuía antes mesmo da conclusão de suas pesquisas, dada biografia bem no estilo self-made man.


Apesar dessa imensa aversão à apropriação do privado pelo público, aceitou prêmios interessantes, pagos com recursos estatais, entre os quais se destacam a dourada Medalha Presidencial da Liberdade (só a título de curiosidade, o último premiado foi Bush-pai), e o interessantíssimo prêmio do banco central sueco, o Nobel. A inteligência rara não vislumbrava qualquer incoerência na apropriação do público pelo privado, como era de se esperar. Se assim entendesse, poderia ter feito como Sartre, intelectual de esquerda e declarado apoiador do comunismo, que negou a bolada. Ou talvez pudesse agir preventivamente, como o nosso Drummond, que fez campanha para não ser indicado... e não ter que ganhar. Mas, e é o que dizem seus fãs, nunca trabalhou para o Estado. Na verdade, retifico: Estados. E digo mais: Estados Unidos da América. Porque em sua trajetória consta prestação de serviços para o governo chileno, especificamente o Pinochet.

O post que se segue discute a nossa convivência diária com milhares de miseráveis pelos quais sentimos um misto permanente de medo, repúdio, piedade e impotência. No Brasil são 16,5 milhões de pessoas em famílias que obtêm no máximo R$ 70,00 per capita mensalmente. A permanência desses sentimentos numa comunidade abastada (Pernambuco possui um PIB per capita de aproximadamente R$ 8.000,00 e mais de 1 milhão de miseráveis) inviabiliza de tal forma o bem-estar individual que somente em ignorância deliberada é suportável conviver. O tecido social se esgarça como consequência de um jogo de forças ocultas. Uma das mais importantes, a célebre mão invisível do mercado. Automática, equilibrada, inconcussa, ordenada, infalível. Surpreendente. Mas há um ponto cego no curso da história da moderna economia capitalista. Ponto no qual agoniza um outro tipo de excedente econômico. O resto, escória, a merdalha, ralé. Como num procedimento de arredondamento de cálculo, esse excesso é desprezado. Torna-se, como a magnífica “mão”, invisível. O mendigo é mão invisível pro mercado.

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Foto publicada no Jornal do Commercio em 31/8/2008

"Pedir a uma corporação que seja socialmente responsável faz tanto sentido quanto pedir a um edifício que o seja." - Milton Friedman

Saiu, já faz tempo, no Jornal do Commercio. Mas aproveitando o ensejo de termos o quinquênio da morte de um dos maiores exponentes do liberalismo econômico, entendo como válido republicar comentários sobre a reportagem “Vidas invisíveis”.

Em Recife, nós, a minoria da população desta cidade, sabemos da existência de pessoas invisíveis há muito tempo. Sabemos tão bem que, por isso, três grandes marcas de blindagem de veículos trabalham com sede nesta capital provinciana. Atendem não apenas aos pouquíssimos consumidores de Audi, Mercedes e produtos congêneres, mas também à classe média, “principal vítima dos assaltos e sequestros”. Afinal de contas, a qualquer momento, inesperadamente, um invisível pode aparecer e...

Mas será que nós, classe média, somos as principais vítimas? Esclarecer essa questão sem dúvida é a contribuição mais importante da matéria (copiada abaixo). Inclusive, leva-nos a refletir sobre o porquê da persistência da criminalidade generalizada apesar de várias ações altruístas como o Mac Dia Feliz e as passeatas pela paz na Av. Boa Viagem, comandadas por Nando Cordel e outras ilustres referências de ativismo social e político.

Uma das respostas é: as soluções são morosas ou ineficientes porque não é um problema nosso. Os poucos habitantes dos estratos concentradores da renda da cidade são os que determinam a pauta das agendas empresarial e governamental. Mas tais agendas, curiosamente, são as mesmas. Enquanto profissionais, somos nós mesmos fazemos o governo e as empresas atuarem em prol das demandas que temos como cidadãos incluídos.

Os estratos que centralizam a renda vivem numa bolha. "Recife é um ovo", ouve-se frequentemente, sempre nos mesmos poucos lugares, dos dotados de macota sabedoria. É tão somente uma outra forma corriqueira, descontraída e descomprometida de atestar a existência de seres medrosos, ensocados em glóbulos viários com rotas definidas pela pseudotranquilidade. Obviamente, sem nenhum tipo de autocrítica. O que seria insuportável para uma sociabilidade burguesa de mesa de bar.

Apesar do funcionamento complexo, a lógica é simples. Meramente comercial. É empresarial e estatal. É própria da predisposição oligopólica que têm as elites do poder político, militar e econômico, como diria Wright Mills. Não é democrática. É fria, como os corpos dos 1101 recifenses executados em 2006 (mais que a França, Bélgica e Luxemburgo somados). Localiza-se na apropriação ilegítima do excedente da produção social. Por exemplo, por meio de projetos de lei que conferem arbitrariamente salários exorbitantes para políticos e servidores públicos. E está também na ingenuidade dos empresários que ainda acham que, ao "gerar" postos de trabalho, estão fazendo uma boa ação. Assim como na corrupção ativa e passiva, contumaz, e outras formas mais engenhosas de surripiar a dignidade humana.

De fato, "não existe café da manhã grátis", já diria nosso guru do dia. Mas o que nos será cobrado se quisermos construir uma cidade capaz de conhecer a paz? Talvez esse preço seja muito mais assustador para nós. Com certeza, sai mais em conta reservar alguns trocados para o flanelinha, ajudar o Criança Esperança, e fingir que nada vê.

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Reportagem na íntegra:

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VIDAS INVISÍVEIS
A morte não causa mais espanto
Publicado em 31.08.2008

Um lugar com índices de homicídios de proporções continentais. Assim é possível definir Pernambuco. Com 8,5 milhões de habitantes, segundo o IBGE, o Estado teve 4.638 assassinatos em 2006. Os 25 países da União Européia, que juntos somam 459 milhões de habitantes, registraram no mesmo ano 6.697 execuções. Localizadas numa parcela específica da população, essas mortes já deixaram de chocar. De causar indignação. De exigir providências.
O comparativo é desproporcional até quando se analisa o número de mortes nas dez maiores cidades pernambucanas. Em 2006, o Cabo de Santo Agostinho, com 172 mil habitantes, teve praticamente o mesmo número de homicídios (140) que Portugal (148), com uma população de 9 milhões de residentes. Nenhum país da Comunidade Européia teve tantos assassinatos quanto o Recife. Para se aproximar dos 1.101 casos da capital pernambucana, é preciso somar todos os crimes desse tipo anotados na França, Bélgica e Luxemburgo.
A explicação para que essa matança já tenha se tornado paisagem passa pelo perfil das vítimas. De acordo com o Mapa da Violência 2008, do Instituto Sangari e da Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana, o Recife é a capital brasileira campeã de assassinatos de jovens.
O levantamento utilizou dados de assassinatos de pessoas entre 15 e 24 anos, de 2002 a 2006. O Recife aparece com uma taxa média de 214 homicídios por 100 mil habitantes dessa faixa etária. Só perde para a cidade de Foz do Iguaçu, no Paraná, que apresentou uma taxa média de 234 execuções por 100 mil.
Quando se estuda o estrato social dos mortos, como fez a pesquisadora Inês Costa, do Núcleo de Saúde Pública da Universidade Federal de Pernambuco, fica claro que são os mais pobres que vêm sendo sistematicamente assassinados.
Segundo os dados apresentados pela pesquisadora em sua dissertação de mestrado, dos 1.424 homicídios de jovens, entre 10 e 19 anos, ocorridos na cidade do Recife, de 1998 a 2004, 93% estavam nas áreas mais carentes da capital pernambucana.
“Dividi os bairros do Recife em três grupos: melhor condição, intermediária e pior condição. A concentração mais significativa dos assassinatos estava nas comunidades onde parâmetros de saneamento, moradia, abastecimento de água, alfabetização e renda dos moradores eram os piores ou intermediários”, explicou a pesquisadora.
O desempregado Claudevan Dias Bonfim, 25 anos, foi morto a tiros na Vila Sotave, uma das comunidades mais carentes de Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife. Na rua sem calçamento onde ocorreu a execução, no último dia 26 de julho, apenas a mãe, Maria José Dias, apareceu para velar o corpo até a chegada da polícia. Em 2006, Jaboatão dos Guararapes teve mais homicídios (553) do que a Polônia (490).
A pesquisa Termômetro da Insegurança, realizada no último mês de abril, pelo Instituto Maurício de Nassau perguntou a 792 pessoas se elas conheciam alguém que havia sido vítima de homicídio. Entre as pessoas com renda até um salário mínimo, 69% tiveram contato com uma vítima de assassinato. Entre os de maior renda, apenas 17% conheciam alguém vítima de uma execução.
Para o cientista político Adriano Oliveira, coordenador do Instituto Maurício de Nassau, analisar o perfil das vítimas de homicídios explica muito a inércia da sociedade em torno do tema.
“Esse assunto só vai ser prioridade para os governos quando entrar na agenda das classes média e alta. Veja o exemplo do uso das algemas. Bastou que os criminosos do colarinho-branco passassem a ser presos para que se começasse a discutir a necessidade de se algemar alguém. Os pobres sempre foram algemados e expostos a essa situação e nunca houve uma preocupação a respeito. No entanto, agora a corte mais importante do País, o Supremo Tribunal Federal (STF), já se posicionou contra”, exemplificou o cientista político.

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A Justiça é para poucos
Publicado em 31.08.2008
No ano de 2003, a área do Ibura (Cohab e Ibura de Baixo), na Zona Sul do Recife, foi a mais violenta da capital pernambucana. Lá, ocorreram 120 assassinatos. A polícia instaurou inquérito para apenas 75 casos. Quarenta e cinco homicídios nem sequer foram registrados. Cinco anos depois, apenas quatro assassinos chegaram a julgamento. Da subnotificação das ocorrências à ineficácia da Justiça, a impunidade contribui para que a violência se perpetue e continue marcando a comunidade.
Quando se diz que a região do Ibura está na Zona Sul do Recife é preciso explicar que, na verdade, a comunidade de mais de 100 mil habitantes está “por trás” da Zona Sul da capital pernambucana. Distante cerca de dez quilômetros da praia. Carente de equipamentos de lazer, transporte público e segurança.
“Faz muito tempo que entreguei na mão de Deus. Em 2004, um ano depois da morte do meu filho, a polícia me chamou para prestar depoimento, porque o caso saiu na imprensa como abandonado. Ficou só nisso mesmo”, lamenta a dona de casa Iracema Alice da Silva, 52 anos, mãe de Rodrigo Alexandre da Silva, morto com tiros de espingarda calibre 12, aos 23 anos, no dia 29 de agosto de 2003, na UR-5, Ibura.
Cinco anos depois da morte do filho, a mãe cumpre, de tempos em tempos, um ritual. Espalha pelo chão da casa as fotos do rapaz e passa horas olhando. “Aquele foi um dia amaldiçoado. É muito triste pensar que nunca mais a gente vai se ver”, afirmou Iracema.
Dos 120 homicídios ocorridos em 2003, na região do Ibura, um terço foi registrado em quatro comunidades: Vila dos Milagres, Jagatá, Terra Nostra e Pantanal. Exatamente quatro das favelas com piores condições de saneamento, urbanização, abastecimento de água e condições de renda e educação da área.
Do bairro do Ibura, avista-se a cidadania de cima. Bem distante. Pela janela de casa, o desempregado Ailton Gomes Ferreira, 42 anos, que mora na Vila dos Milagres, enxerga Boa Viagem. “A vista é muito bonita. Gosto de ficar olhando daqui os prédios altos. A gente consegue vê-los, mas de lá eles não vêem a gente né?”. Não vêem mesmo, Ailton.

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Descartáveis na vida e na morte
Publicado em 31.08.2008
No Recife, indigentes são enterrados no Parque das Flores (fotos). A cova é mais do que rasa

Quem nem sequer existiu na vida não poderia ter outro destino na morte. Nascem e morrem indigentes. Grande parte vítima de violência. Sem nomes, são enterrados nus, em caixotes de madeira fina, barata e remendada. Parecidos com aqueles que transportam fruta nas feiras. É morte sem cheiro de flor. Enterro de indigente tem cheiro de cadáver apodrecido. São 15 dias na geladeira do Instituto de Medicina Legal (IML) sem que ninguém se apresente para dizer “ele é meu parente”. Duas semanas é o prazo para receber o carimbo oficial de indigente, descartável. Se estivessem vivos, não dariam importância para o tratamento que recebem na morte. Viveram sempre assim, mortos. E na morte continuam do mesmo jeito, jogados. Quando o vento sopra mais forte, os coveiros, num gesto sincronizado, viram de lado e cobrem o nariz. Só este ano, no Recife, 394 pessoas, grande parte abatida a tiros, tiveram esse triste fim.
Ano passado, foram 940. Gente que, viva, só possuía o corpo. Não há roupa para vestir o morto. Pior. Não há quem o vista. Nem ninguém para derramar uma única lágrima, jogar uma flor, reclamar da tampa aberta do caixão, cobrar dignidade, inscrever o nome na lápide ou fincar uma cruz no chão. Nada disso. É um funeral sem pêsames, num lugar descampado e escondido nos fundos do cemitério, onde se escuta a discussão entre os coveiros para ver carregar os corpos mais pesados. Enterro de indigente tem até gargalhada.
A cova é mais do que rasa. São só 60 centímetros e um pouco de lama. Quase no chão. Falta até terra para cobrir o caixão. Coloca-se mato por cima “para enganar”. Cortejo é o motorista da funerária e os quatro coveiros. Cada um pega numa alça do caixão. Brigam para segurar a parte dos pés. “Por um momento, quando a gente leva o caixão para a cova, nós somos os familiares. Só que não choramos”, diz o coveiro Paulo José de Aquino, 46 anos, conhecido como Alegria.
Os indigentes são como leprosos, daqueles que ninguém ousa se aproximar. Nem na vida, nem na morte. A repugnância sempre os acompanhou. “Eles não têm ninguém. Não há como ser diferente. Quem vai se importar com isso?”, interroga o coveiro José Augusto Bezerra, 48 anos, Soró, há mais de vinte anos enterrando “esse tipo de gente”.
E esse tipo de gente só recebe o primeiro documento quando deixa de viver. Se estivessem vivos, saberiam que a prefeitura gastou R$ 124,00 com o seu enterro. Sem dúvida, o gesto mais nobre que nunca receberam. O primeiro reconhecimento público de existência só vem com a morte. Uma guia, assinada pelo gerente do IML, identifica o cadáver com um número, posteriormente escrito de giz na tampa do caixão mal fechado. Alguns agentes funerários esperam a liberação do corpo e jogam na loteria. “Sempre venho para cá e anoto os números. Nunca ganhei.”
Para contar a história de morte daqueles que nunca viveram, o JC acompanhou o processo fúnebre de vários indigentes por mais de uma semana. Logo no primeiro dia, uma senhora pobre, desesperada e suada bateu com força no vidro da recepção do IML e implorou para olhar o corpo do filho. Ele havia sido assassinado, em Vitória de Santo Antão, Zona da Mata, há três dias com golpes de faca e pedradas. "Quero olhar para ele. Trouxe uma roupinha para vesti-lo." O funcionário faz uma ressalva, mas autoriza a entrada. Depois de 15 minutos, ela sai e abraça a filha. "Pelo menos, conseguimos colocar uma roupa nele", diz, mais aliviada. O caixão é do barato, mas é cheio de dignidade. Não é um caixote de fruta. Esta é a diferença. Os indigentes ficam lá, apodrecendo. Os dias passam e não há uma pessoa que se importe.

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O triste fim do João-Ninguém
Publicado em 31.08.2008

Não há importância no olhar de quem desvia dos nossos mortos. Indiferença produzida por quase 400 cadáveres mensais

De tanto se matar, não há mais espanto. A periferia vestiu uma couraça. Não se reconhece nem quando está estirada no chão. Os corpos ficam ali por horas, esquecidos, no canto da rua, atrapalhando a passagem. Não há uma gota de importância no olhar de quem desvia dos mortos. Na Rua Getúlio Vargas, no Janga, no município de Paulista, Grande Recife, pelo rádio da viatura, às 10h30, um policial militar avisa ao Instituto de Medicina Legal (IML) que há mais um “pacote” no meio da rua para ser recolhido. O “pacote” é Edson Pereira da Silva, 29 anos, pai de duas meninas. Assassinado a tiros, às 23h30 do dia anterior, continuava ali, com o rosto enfiado no barro. É a indiferença produzida por quase quatro centenas de cadáveres mensais, uma monotonia pernambucana e estúpida. Ano passado foram 4.592. Na Avenida Boa Viagem, Zona Sul do Recife, morte é exceção. Mesmo assim, o cooper matinal segue na mesma passada. Não olha nem de lado. Os cadáveres tornaram-se impessoais, distantes. “Já vi tantos aqui. Perdeu a graça”, comenta um aposentado, com um saco de pão nas mãos, que havia acabado de mudar de lado da rua para desviar de um deles, no bairro da Várzea. Também não olhou. Há um consenso surdo de que morrem as pessoas certas. São os “matáveis”.
Os olhos dos pobres se acostumaram. Aquele com um tiro na cabeça e encharcado na poça de sangue é um objeto qualquer que será recolhido em breve. E, num tempo mais breve ainda, outro vai ser colocado no mesmo lugar. Também com um tiro na cabeça. “Menos um” é a expressão que mais se ouve da boca de quem passa ao lado dos corpos. Na verdade, é mais um com o mesmo fim. É natural desprezar o corriqueiro. Mesmo quando a rotina, assim vermelha e banal, é absurda. Pessoas passam, riem, contam piadas, assobiam a música da hora. Sujam até o pé descalço no rastro de sangue, mas nem percebem. Outros posam para foto ao lado do corpo.
Há até quem reclame do lixo acumulado há mais de 15 dias num terreno bem próximo de onde o corpo espera o recolhimento. A comunidade está revoltada mesmo é com a lentidão da limpeza urbana. Ninguém reclama do cadáver esquecido. “É um absurdo. Façam alguma coisa. A prefeitura não recolhe esse lixo acumulado aqui. Toda vez é isso. Ninguém suporta mais o cheiro ruim”, diz José Maria da Silva, 53 anos. O caminhão de lixo chega e os garis começam a limpar a sujeira. Os moradores se viram para pressionar os servidores municipais. Chovia muito. Nem notam Edson Pereira da Silva esparramado no chão. Como disse o PM, é só um “pacote”.
“Deviam aproveitar o caminhão do lixo e levar esse corpo. É tudo lixo mesmo”, diverte-se uma criança de 12 anos. A risadagem é geral. Um menino passa correndo ao lado do rastro de sangue. Por pouco não bate no morto. Josué Santos Lima, uma criança de 7 anos, conta para um colega que é o quinto assassinato que já viu. “Aquele outro tinha menos sangue”, explica. Perto dos corpos, sempre há mais mães com crianças nos braços do que policiais.
Na Iputinga, Zona Oeste, na Rua Irmão Ferreira, era domingão de sol. Humberto Bezerra de Lima havia acabado de ser assassinado com quatro tiros na cabeça. Perto das 16h, a quantidade de crianças no local impressiona. Dois meninos brincam de plantar bananeira bem próximo da vítima. Depois dão saltos mortais e jogam capoeira. Ao lado, duas meninas divertem-se com a brincadeira de virar estátua. Estão de costas para o cadáver. Continuam assim por um bom tempo. Alguns tomam cerveja e escutam o jogo de futebol pelo rádio. Um dos garotos, que brincava de pega-pega, é Mateus Alves da Silva. Tem 10 anos e já viu oito mortes na Iputinga, bairro onde mora. Quase um assassinato para cada ano de vida.
Rapidamente, conta que pai, dois tios e um irmão “morreram de tiro”. Espantado com o corpo coberto pelo lençol? “Você viu o meu salto? Foi o mais alto de todos”, desconversa. Na esquina, algumas crianças com bolas de encher passam para um aniversário. “Qualquer dia desses, as pessoas tropeçam no cadáver”, diz o policial militar, que espera há três horas o caminhão do IML. “Se fosse em Casa Forte (bairro nobre da Zona Norte), era rapidinho”, completa.

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Cenário banal da morte
Publicado em 31.08.2008
Numa quadra de futebol da Rua João Paulo II, no Coque, na Ilha Joana Bezerra, área central do Recife, Edvan Clemente Barreto da Silva, 18 anos, caiu com um tiro na cabeça. Interrompeu a pelada por algumas horas porque a Polícia Científica isolou metade da quadra. Ao lado do corpo, três meninas, de 12, 11 e 10 anos, sentadas em roda, conversam animadamente. “Conversa de menina mesmo”, diz uma delas quando questionada pelo repórter sobre o que estavam falando. Não falavam de Edvan. “Estamos acostumadas”, soltou outra. Edvan nasceu no Coque e também era acostumado com a morte.
As crianças em volta de Edvan só prestaram mais atenção quando os peritos do IML retiraram o lençol que cobria o cadáver. Muitas se aproximaram para observar os detalhes. Um menino de 10 anos fez o sinal-da-cruz quando percebeu o buraco de bala na cabeça. Foi o primeiro gesto de espanto. Havia mais de 20 crianças na quadra. Duas mães com bebês nos braços conversavam animadamente. Mesmo com o corpo descoberto, vários meninos continuaram o que estavam fazendo.
Pertinho de lá, no bairro dos Coelhos, o assassinato de Jaqueline Suelin da Silva, 25, movimentou a rua. Eram 9h40 quando levou três tiros no tórax. Mas era domingo de sol e a piscina de plástico estava cheia. A meninada nem deu bola para mais um no chão.
Na noite de 2 de agosto, o coveiro Romero Simões, 31 anos, chamou a esposa para tomar uma cerveja em um bar perto de casa, em Maranguape II, Paulista. Ao chegar ao boteco, na avenida mais movimentada do bairro, Romero viu uma multidão do outro lado da rua. Dois homens em uma moto tinham acabado de matar o pedreiro José Antônio Gomes, 36, a tiros. O destino trágico do pedreiro não fez o coveiro mudar os planos. “Não vou deixar de fazer o meu lazer por causa disso. Todo mundo aqui está acostumado. Se mata às 10h da manhã neste bairro. Quando a safra está boa é feito fruta, em todo canto tem”, comentou o coveiro. “É capaz que seja eu quem faça o enterro. No meu trabalho a gente sabe, a vida continua. Quem morreu é que se acabou.”

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Eles são apenas “matáveis”
Publicado em 31.08.2008
Homo sacer. O termo foi utilizado pelo filósofo italiano Giorgio Agamben para definir os moradores de Roma na Antiguidade, que eram tão indignos que nem para serem sacrificados como oferenda aos deuses serviam. Eram seres humanos insacrificáveis, apenas “matáveis”.
Os “matáveis” hoje habitam a periferia. Se espremem nas favelas. Vivem à margem de uma sociedade que lhes vira as costas, trava o trinco da porta do carro e troca de calçada quando cruza com eles.
“A sociedade considera que são vidas que merecem ser vividas menos do que as outras. Se aceita a destituição total de direitos de uma grande massa da população por motivos étnicos ou financeiros. A parcela dominante do grupo exclui os que considera marginais e os priva de uma existência plena”, explica o sociólogo e professor da Universidade Federal Fluminense, Luís Carlos Fridman.
Para o sociólogo, há uma “guetificação” nas favelas e isso produz insensibilidade. Já se tornou um traço cultural, a existência de uma separação. De cidades divididas, com os pobres apenas sobrevivendo.
O coordenador do Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Michel Misse, acredita que uma parte da população tenta neutralizar sua culpa no processo de criminalização das camadas mais pobres, justificando os assassinatos na periferia como uma conseqüência do comportamento das vítimas.
“Esse raciocínio constitui e sedimenta o preconceito. Vivemos um individualismo egoísta porque o Brasil nunca constituiu um individualismo moral”, observou Michel Misse.
A indiferença diante do extermínio de gente pobre também se alterna com a letargia diante de casos extremos de violência policial nas favelas. “Há uma parcela significativa da sociedade que propositadamente ignora o fato de a polícia entrar atirando nas favelas ou pior, apóia esse tipo de comportamento”, complementou Misse.
A indiferença diante das violações dos direitos das minorias não é uma exclusividade brasileira. Luís Carlos Fridman se lembrou de uma foto publicada no último dia 21 de julho na imprensa internacional. Duas meninas ciganas mortas afogadas em uma praia da cidade de Nápoles, na Itália, não despertam compaixão nem interesse num casal de banhistas que toma sol ou em um rapaz que fala ao celular.
“Não é um fenômeno brasileiro ignorar o sofrimento das classes menos favorecidas. No entanto, expressões como ‘passar o rodo na favela’ ou ‘inseticida social’ já se tornaram corriqueiras para uma sociedade, que por ter medo acaba legitimando um sistema opressor contra as camadas mais pobres da população”, afirmou o sociólogo Luís Carlos Fridman.


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Bastidor da reportagem
EXCLUSIVO ONLINE Absurdo do corriqueiro faz nascer pauta
Publicado em 31.08.2008
João Valadares

Era uma manhã qualquer de terça-feira. Não mais do que 10h. Eu e o repórter fotográfico Rodrigo Lobo passávamos pela Rua Imperial, bem pertinho do Coque. Pelo telefone, sou avisado de que um jovem acabava de ser assassinado numa quadra de futebol de lá. Desviamos a rota e seguimos para a Rua João Paulo II. Antes mesmo de descer do carro, percebi o corpo coberto com um lençol bem no centro da quadra. Ao lado, uma roda de três meninas. Sentadas, conversavam animadamente. "Conversa de menina mesmo", me disse uma delas.
Edvan nasceu no Coque e cresceu assistindo às mesmas cenas. Levou um tiro na cabeça e interrompeu por algumas horas a partida de futebol. No local, contei 20 crianças. Acho que havia bem mais. Algumas brincavam, outras olhavam atentamente para o corpo. Mas não havia espanto. Nenhuma gota de importância no olhar. Não há com o que se espantar. É natural desprezar o corriqueiro. O problema é que o corriqueiro é o absurdo. Pensei. Criança gosta de novidade. Faz sentido o que a menina de 11 anos me disse. "Estamos acostumadas".
Voltei para redação ruminando esta frase. Lembro que, alguns dias depois, conversei com o diretor-adjunto de redação, Laurindo Ferreira, sobre a imagem. Ali, nascia a pauta. A periferia estava vestida de indiferença. O tempo passou, entrei de férias e nada. Coisas do jornalismo. Até que um dia chego para trabalhar e uma foto de Renato Spencer, publicada na capa do Jornal do Commercio, mostrava o mesmo. Era domingão de sol nos Coelhos. Um cadáver esparramado no chão e uma piscina de plástico ao lado cheia de alegria. Mais uma vez, crianças que não olhavam nem de lado. Lembro bem que peguei as duas fotos e levei para Laurindo. Conversamos muito sobre as imagens e o projeto ganhou corpo. Conversei com Eduardo Machado e resolvemos fazer o projeto juntos.
Machado já tinha a idéia de distribuir agendas com moradores de rua para que eles contassem o seu dia durante um mês. Juntamos as duas coisas para contar um ciclo invisível de vida e de morte. Durante dois fins de semana seguidos por 24 horas acompanhamos todos os assassinatos. Plantões cansativos até 8h da manhã. Acho que nunca trabalhei tanto. No Janga, um corpo cheio de balas esperava o recolhimento. Gente descalça melava os pés no rastro de sangue e nem percebiam.
Ao perceber que um repórter estava ali, todos reclamaram da lentidão da limpeza urbana. Reclamaram do lixo acumulado no local. Ninguém falava do cadáver. Era apenas mais um. "O caminhão de lixo deveria aproveitar e levar o corpo. É tudo lixo mesmo." Esta frase me assustou. Saiu da boca de um menino de 12 anos. Antes, pelo rádio da viatura, um policial militar informava ao IML que havia mais um "pacote" no meio da rua. O "pacote" era Edson Pereira da Silva, 29 anos, pai de duas meninas. Assassinado a tiros, às 23h30 do dia anterior, continuava ali, com o rosto enfiado no barro. É isso. Acostumado com coberturas policiais, confesso que poucas vezes me emocionei tanto fazendo uma reportagem. Deixo vocês com uma frase de uma mãe que perdeu o filho assassinado e ainda o procura nas gavetas do IML. "Sou pobre, mas sou mãe. Quero enterrá-lo."
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Os muitos lados de uma mesma história
Publicado em 31.08.2008
 Eduardo Machado

"Tira uma foto comigo". "Queria um kit da TV Jornal". "O senhor me arruma uma bermuda?". Foram algumas das frases que ouvi deles. Foram deixando de ser invisíveis para mim aos poucos. Dois meninos e duas meninas. Escolhidos entre os assistidos por uma ONG porque sabiam ler e escrever. Ganharam diários. Passamos a nos ver uma vez por semana. Em uma das vezes, fomos eu e o repórter João Valadares encontrá-los. Um sentou do lado de João para ver como estavam os escritos. Outro chegou do lado e abraçou o meu colega. Era uma carência de atenção gritante.

É difícil manter uma distância profissional numa matéria como essa. Ninguém olha por esses meninos. Eles estão no pelotão de frente da massa humana que é dizimada todos os anos em Pernambuco. Enquanto insistirmos em ignorar essas pessoas nosso estado continuará sendo inseguro para todos.

Aliás, se de um lado conviver com os meninos de rua foi reconfortante, passar dois finais de semana acompanhando a Força-Tarefa de Homicídios realizando o registro dos assassinatos na Região Metropolitana do Recife foi depressivo. Eu e João nos revezamos em plantões de 12 horas, das 8h da sexta-feira até as 8h da segunda-feira. A pauta era comprovar que a morte não causava mais espanto. Corpos no chão solenemente ignorados. Gente morta em uma lado da rua, um pagode do outro. Um cadáver na porta de um salão de beleza e mulheres fazendo escova do lado de dentro. Uma normalidade mórbida.

Há muito tempo um trabalho não me faz refletir tanto. Penso muito nos meninos. Mais ainda no que está na capa do caderno especial. Pedro, conhecido como Rato. Dezoito anos, cinco vezes preso, usuário de drogas, negro. Perfil completo da vítima de homicídio em Pernambuco. Antes de conhecê-lo ele era apenas essa descrição. Hoje, sei que ele é um cara que faz rap de improviso, toca percussão, joga capoeira. Não pode voltar para casa porque tem uma dívida com traficantes. Em seu diário ele pede socorro em quase todas as páginas. "Quero voltar para casa. Sei que vocês podem me ajudar". O pior é isso, Pedro. Todos sabem que podem ajudar você, mas preferem seguir sentindo medo.



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