Empatia e pobreza





Um sociólogo que respeito, Jack Levin, famoso pelo pavor que seu livro de Estatística causa na maioria dos estudantes, acabou de divulgar uma pesquisa revelando que gente adulta vítima de abuso inspira menos empatia que animais de estimação (cães e gatos) nas mesmas condições.


Tudo indica que no processo evolutivo o cérebro humano se centrou predominantemente na autopreservação, só abrindo exceção para doar tempo e energia a tudo aquilo que se entende como "filhote". Animais de estimação adultos, na visão do ser humano típico, seriam como "filhotes grandes". Um adulto diante de outro adulto em situação de abuso sente instintivamente a sensação de risco em vez da empatia. É provável ser sempre mais fácil encontrar pessoas dispostas a cuidar de animais abandonados do que, por exemplo, a prestar ajuda a  adultos moradores de rua. Isso explica a exploração de crianças nos sinais de trânsito, mesmo os pais estando por perto e em condições de fazer o trabalho.


O exercício da espiritualidade que potencializaria a empatia surge como uma possibilidade de mobilizar muitas pessoas para intervenção junto a adultos em situação de rua. Mas pode ser apenas do exercício da espiritualidade que dependa a preservação do tecido social em sistemas econômicos geradores de pobreza? Infelizmente, não. Não dá para depender apenas da espiritualidade já que esta também se assenta sobre um terreno muitas vezes conflituoso em sua manifestação enquanto prática religiosa organizada. Se por um lado é preciso pôr em evidência o ecumenismo e a sabedoria perene, é da mesma forma importante legalizar mecanismos econômicos de combate à pobreza.

De partida, não há como fazer diferente de retirar ponderadamente dinheiro via impostos dos que conseguem gerar/obter renda, pois caridade é imprevisível (e, segundo a pesquisa, pouco incentivada pela falta de empatia da população com humanos adultos), e impossível de ser colocada como base de qualquer planejamento da assistência social. Ou seja, há de se garantir mesmo o direito a uma "renda mínima" (neste sentido). Por ser mínima, essa renda é insuficiente para aniquilar a ambição do sujeito em situação de pobreza.

A assistência social não é caridade, é a economia tentando aperfeiçoar-se (otimizar o bem-estar para todos os nascidos, independente da demanda por suas habilidades e de sinistros da vida) por meio de trabalho profissional. O debate deve ser travado sobre quais são as formas mais eficientes, dada a atuação dos profissionais (e eventuais voluntários) para eliminação da pobreza e não dos pobres. Uma sutil mudança de palavra como essa exigiria a eliminação de qualquer sujeito que por ventura caísse em estado de pobreza em decorrência de crise financeira, ambiental, de saúde etc.

Trata-se do maior desafio da política, em minha opinião. Passa por inúmeras questões complexas e entrelaçadas porque, se é necessário algum modo de transferência de renda para os adultos pobres, também é básico garantir 12 anos de educação diária e de qualidade para a geração mais nova, sem contar com a EJA (os “antipáticos”) e as capacitações de curta duração para geração imediata de trabalho e renda. Não há como fazer isso sem que a educação não seja uma condicionalidade (dever que o beneficiário tem que cumprir para receber a transferência de renda, um dever que, diga-se de passagem, é difícil de fiscalizar, embora um elevado rigor na fiscalização seja a pedra-de-toque da efetividade da política). A renda mínima confere a dignidade de fazer escolhas simples, de sobrevivência com bem-estar. Mas é o devido cumprimento das condicionalidades que vai livrar o indivíduo das características do perfil de exclusão que o faz beneficiário da transferência de renda. É bastante complicado porque não basta apenas o beneficiário atender o que se exige dele com a educação de seus filhos, mas que o Estado esteja pronto para atender em nível de excelência (o que inclui além de toda estrutura das escolas, um aparato de controle da violência escolar e valorização do professor) essa demanda de serviços gerada pela condicionalidade. Sem contar com a manutenção da rede de direitos, incluindo prevenção em saúde (também uma condicionalidade) e segurança, que deve se estender mesmo àqueles que, por ora, não têm condições de contribuir com o Estado de bem-estar. 

O cuidado derradeiro fica por conta da preservação da democracia enquanto se leva a efeito esse demorado e delicado processo de superação da pobreza. É em primeiro lugar a participação política voluntária que assegura a sobrevivência dos direitos e liberdades democráticas. Não é a estrutura institucional do Estado, como muitos podem pensar. Essa estrutura tende naturalmente a se degenerar em oligarquias corruptas que não geram a esperada otimização do bem-estar de todos. Depende de grupos civis instruídos na fiscalização da classe política e burocracia o aprofundamento do regime democrático com, hoje, cada vez mais mecanismos facilitadores da participação direta e transparência dos processos administrativos, possibilitando a ampla publicidade dos gastos públicos (muitas vezes complicada), sem super salários, sem regalias, sem luxo, econômico e sem pobreza.

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