Religiões e a liberdade autêntica: uma indicação de leitura



Nesta data de 21 de janeiro se comemora o dia mundial das religiões. Num sentido amplo de convívio entre religiões, não apenas o sentido profundo da religiosidade específica. Afinal, religião não significa necessariamente fé cega, acreditar sem "ver", sem provas, acriticamente (embora muitas sejam assim). Equivale na verdade a uma "religação" com o que quer que se entenda como a essência de todas as coisas, o momento presente e o silêncio meditativo e prolongado.

Poucos sabem, mas na prática religiosa é possível exercitar tanto a intuição quanto o ceticismo. Esse movimento humano pode conter, e geralmente contém, adornos culturais com os quais se objetificam figuras divinas. Isso não é um problema. São expressões do mistério, e devem ser respeitadas para também serem reunidas sob um mesmo propósito maior. 

Nossa contribuição neste dia comemorativo será oferecer a leitura de um capítulo inteiro do livro, "Wu Wei: A Arte de Viver o Tao", fundamental até para uma formação filosófica. Um livro depois do qual, acreditamos, pouca coisa sobra para ser lida a respeito da ideia de ''liberdade". A intenção aqui é divulgar essa obra-prima, primeiro livro e best-seller do alemão Theo Fischer. O livro vai da introdução básica à prática da vida a partir da perspectiva do milenar conceito de Tao. Leia, leia mesmo, pausadamente, este capítulo 5. Depois, vá além [1].


Cap. 5 - A maneira de viver do Tao


Como vive uma pessoa do Tao? Vamos antes dizer  as palavras de Dschuang Dsi:

"Elas são sinceras e justas, sem saber que esta ação constitui integridade. Elas se amam umas às outras sem saber que isto é bondade. Elas são sinceras e não sabem que isso é lealdade. Elas cumprem as suas promessas  sem saber que assim elas vivem em crença e confiança. Elas se ajudam sem pensar em dar ou receber presentes. Assim a sua ação não deixa rastros."

Na dialética do taoísmo, fala-se de pessoas que têm a qualidade da “madeira bruta”. O mundo da madeira  bruta é um mundo cheio de naturalidade, sem intenções, sem motivos e esforços. As pessoas vivem, estão abertas para os movimentos da existência e recebem todos os acontecimentos de braços abertos. A pessoa  toma suas decisões espontaneamente. Ela nunca analisa a situação, ela compreende o seu conteúdo intuitivamente, e a partir desta intuição nasce a ação. Desta maneira é impossível a compreensão calculista opor-se ao fluxo do Tao. Quem permanece no Tao sabe que não  precisa mais responder com luta, poder ou esforços aos desafios da vida, suas necessidades e problemas. Ela também não precisa quebrar a cabeça para saber como resolver as coisas. Se fizesse isto ela iria ao encontro destes problemas com meios insuficientes e abriria assim as portas e porteiras para a continuação do sofrimento e da miséria em sua vida. A pessoa do Tao vive totalmente no presente. Ela possui a plenitude de suas lembranças, mas ela não utiliza essas lembranças. Não fica pensando nos problemas. Ela pensa quando precisa de conhecimentos para realizar seus afazeres. Fora isto ela deixa os pensamentos virem e irem, da maneira que surgem, sem ocupar-se com eles, ou querer segurá-los.

Esta pessoa não permite que você se estabeleça neles e neles permaneça como antigamente. Ela é como o vento de outono quando movimenta as folhas avermelhadas. Ele as toca, mas não  as leva para longe. Elas caem da árvore e se tornam terra novamente. Assim é a conduta da pessoa do Tao com os pensamentos. É claro que ela não pode desistir disto totalmente, isto pareceria uma amnésia e tornaria a pessoa incapaz de viver. Mas ela envia os pensamentos ao lugar que eles pertencem. No lugar do constante pensamento desenfreado entra a atenção. Ela está totalmente atenta e não lhe escapa nenhum detalhe do cotidiano. Ela revê o seu cotidiano com outros olhos. Ali onde outrora a sua compreensão regulamentada e condicionada censurou os sentidos ela vive agora diretamente a realidade sem nenhuma influência distorcida, corretora. A sua visão de mundo muda e torna-se a cada dia mais renovada e menos velha. 

A pessoa do Tao não sabe o que é impaciência. Em todo lugar em que se encontra, ela chegou, e está no objetivo, isto é, consigo mesma. Não está esperando nada. O que acontece, acontece, e ela aceita. Assim como a cerejeira floresce na primavera e traz os frutos no verão e nem por isto espera da primavera até o verão, até que finalmente as cerejas estejam maduras, mas simplesmente está lá, existe, assim vive a pessoa do Tao de um dia para o outro. Ela não quer nada mais do que já é. Não há nada que seria melhor ela ser, ela não tem ambição por honra e glória. Para ela a sua própria vida completa já é suficiente. Para ela é indiferente como a sua  vida é avaliada por outras pessoas, afinal, ela vive para si e não para as pessoas ao seu redor. 

A pessoa do Tao não tentou eliminar seus próprios erros como cobiça, inveja, ciúme, ambição, medo, ou seja qual for o nome. Ela os aceitou como se fizessem parte dela e os identificou como algo familiar, humano. Ela os observou atentamente, ficou atenta a como reagia no presente a provocações. E assim, adquiriu conhecimento sobre si, uma visão na profundeza do seu ser. Sob esta suave atenção houve coisas que se transformaram do seu interior para fora. Naturalmente ela não está livre de desejos, mas não depende deles. Ela é capaz de alegrar-se com posses materiais, mas ela possui e não é a propriedade que a possui. Ela não se controla constantemente se possui a postura espiritual correta, mas pode dar-se ao luxo de deixar correr, viver bem descontraída, sem nenhuma tensão. Ela não aceita instruções de ninguém, não padece de sofrimentos e não se entrega a nenhuma instituição que queira atuar como deve ser a sua vida interior, o seu caráter, ou como deve se comportar com outras pessoas. Ela vive conforme a autoridade interior do Tao, mas mesmo esta não é consciente. Ela não reflete sobre moral e justiça, sabe que age corretamente quando se trata de impulsos espontâneos que sempre ocorrem no momento certo. Esta pessoa não tem preocupações. O passado com hipotecas de erros cometidos e insuficiências já passou, este não existe mais, e nunca a pessoa do Tao fica revirando suas lembranças e procurando velharias. Ela se responsabiliza pelas coisas graves que realizou anteriormente, identifica-se com elas sem medo, e reconhece os erros cometidos. Mas é só isto. Ela não fica se torturando constantemente e se machucando com auto-repreensões e vingança inútil. Ela reconhece os problemas logo no início e dedica-lhes, sem vacilar, total atenção e os contempla detalhadamente. Depois ela se dedica aos acontecimentos do dia e esquece os problemas novamente. A ilimitada inteligência atuante através dela encontra a solução para ela muito mais rápido e melhor do que poderia o seu próprio intelecto limitado. Desta forma as coisas entram em movimento por si próprias. Ela entra em ação quando o impulso lhe diz isto, e sem vacilar, sem dúvidas,  se suas ações são corretas. 

A pessoa do Tao não conhece depressão, neurose ou doenças psicossomáticas. Cada vez mais o seu inconsciente se abre para ela. Neste campo não ocorrem mais repressões. Pois tudo o que ela vivencia ela o assimila diretamente através dos sentidos para o consciente, sem que a compreensão tivesse a possibilidade de exercer a sua censura. Por isto ela é equilibrada, a sua disposição está repleta de harmonia e tranqüilidade. Como ela aprendeu a não se comprometer com nada, absolutamente nada, como ela se soltou, reside nela uma serenidade total. Nunca fica nervosa ou reage irritada por causa de fatos desconhecidos ou inesperados. Ela é capaz de aproveitar as mais belas facetas da vida naquele momento em que elas se oferecem, ela não tenta segurar a alegria ou o momento. Ela não se entrega a este momento e perde aquilo que continua a acontecer neste tempo.

Esta pessoa é aplicada, mas não é fanática pelo trabalho. Ela também não utiliza o trabalho como fuga, e não se lança a outras atividades exageradas para compensar uma falha. Ela trabalha pelo prazer do trabalho, não para acabá-lo o mais rápido possível. Ela não se deixa pressionar. E assim mesmo ela tem maior capacidade de desempenho do que muitos que trabalham sob maior emprego de energia. Exatamente por cumprir o  seu trabalho diário tão livre e descompromissada, pelo prazer do trabalho e não pelo resultado, ela tem um ótimo resultado. 

A pessoa do Tao é produtiva. Sua criatividade não é limitada a alguma habilidade – ela atravessa sua vida inteira, e é visível em todas as coisas que ela toca. Ela não tem consciência desta criatividade, que algum dia entrou em sua vida e desde então ela atua através desta pessoa e também determina a qualidade dos dias e das obras. Esta pessoa está aberta para contato com pessoas e mostra-se desembaraçada, aberta e livre. Ela diz a sua opinião, mas também deixa valer a opinião dos outros (é claro que sem se orientar nelas). Ela não é teimosa, mas defende bem o seu ponto de vista sem ser agressiva ou querer dominar os outros. Ela não lida com política. Mas observa os acontecimentos do mundo com muita atenção. Ela se considera responsável pelos acontecimentos e não tenta reprimir esta responsabilidade. Ela tira a visão de guerras e massacres, da falta de liberdade e tirania. Ela aceita estas coisas como objetos de sua vida, e procura mudá-las dedicando atenção a elas.

Ela não pensa só nos prazeres da vida, mas tem muita alegria em viver. Quando aproveita algo, ela vive intensamente o prazer. Quando aproveitou algo, e o prazer passou, ela não fica presa à diversão nem no pensamento e nem no desejo. Ela continua em frente até que um outro motivo a leve ao prazer. Ela mesma não fica à procura destes acontecimentos, ela não determina o seu decurso de vida. Para ela não existe motivo para esconder-se atrás de costumes que lhe proporcionem prazer, e desviem a sua atenção da miséria da vida. Ela estrutura a sua vida sem medo, e não necessita deste tipo de distração. Se mesmo assim ela a aceite agradecida, será então porque esta aceitação faz parte das coisas mais belas e agradáveis do cotidiano, assim como trabalhar, comer. Descansar e dormir.

A pessoa do Tao tem uma relação descomplicada  com os seus sentimentos. Ela os aceita e os deixa fluir livremente sem fazer nenhuma tentativa de reprimir sentimentos ou até envergonhar-se deles. Para ela alegria é alegria, e sofrimento e tristeza é tristeza. Os sentimentos existem para ela não como conceitos verbais, ela não fica à espreita do que está sentindo e depois constata: “Ah, estou amando.” 

Para ela os sentimentos também não são apenas opostos de outros sentimentos, como por exemplo o ódio é o contrário de amor, a alegria o contrário de tristeza. Para ela alegria é aquilo que realmente é, e tristeza a mesma coisa. Nada é o oposto de outra coisa. E a pessoa do Tao vive os sentimentos de sua vida no meio, ela recebe aquilo que proporciona alegria e o aceita, da mesma forma que suporta a tristeza quando esta surge. Ela vive estes sentimentos diretamente, não interpretando, como a maioria das pessoas. (Quem aprende a sentir os sentimentos puramente perceberá que tem em si uma dimensão totalmente nova da percepção da realidade). 

Ela não procura ter influência na sociedade e não tende a desempenhar um papel importante nela. Se tiver sucesso – e isto ocorre sempre – ela será louvada, e esta honra não lhe sobe à cabeça. Ela está com o coração cheio de humildade, pois reconheceu que o seu destino é determinado pelo Tao e aceito voluntariamente por ela, porém dirigido por uma mão infinitamente sábia. Caso devesse assumir funções públicas ou ser chefe em uma grande empresa, ela nunca se esquece que é uma entre muitas pessoas, e que seus semelhantes - assim como ela - necessitam de dedicação, amor, e tratamento humano. Ela age baseando-se nestas normas. O lucro não tem importância para ela. Ela não está atrás de lucros, e nem de fortuna, pois sabe que este objetivo tiraria a sua liberdade. Mesmo sem esforço as coisas boas da vida fluem para ela corretamente, pois ela não tenta alcançá-las à força. 

Em um relacionamento de amor, uma parceria, ou um casamento ela mantém a sua independência e liberdade interior. O que não significa que essa liberdade deva ser entendida como infidelidade – a pessoa do Tao é constante, significa que ela respeita a integridade e as necessidade do parceiro da mesma forma que as suas. Ela é capaz de amar, sem querer possuir. Ela não enxerga o parceiro como propriedade privada, mas permite ser cobrada da mesma forma. Preserva a sua independência e mesmo assim é capaz de viver um grande amor. Na verdade, o amor só pode evoluir nestas condições. 

A pessoa do Tao vive uma vida sem problemas. Ela se realiza no presente. Não se orienta por instituições, organizações ou religiões. Deixa que todos sejam como são, mas ela mesma se mantém fora de toda confusão. Ela não se engaja, também aqui fica livre e descompromissada. Ela não tenta impor a sua opinião para outros, não tenta converter os outros a sua filosofia de vida. Automaticamente ela é um exemplo, e esse exemplo é visto pelos outros. Nós percebemos a sua tranqüilidade, a paz que irradia, sua vitalidade – e sucesso invejável que ocorre com facilidade em sua vida. Quem a interrogar sobre seu sucesso terá uma informação sem reservas. A pessoa do Tao não esconde aos interessados o método que colaborou para a sua transformação. Mas ela não quer ser um guru, ou um ditador, pois sabe que cada um tem de achar o caminho por si mesmo. O outro que lhe mostrar o caminho, na melhor das hipóteses pode ser um mapa, ou uma rosa-dos-ventos. O caminho, o mapa, a estrada, isto é o próprio indivíduo.


[1] - "Ir além" tem duplo sentido. Serve tanto como conselho para ler o livro todo quanto praticá-lo. A prática é sempre o movimento mais importante da religiosidade. Talvez seja esse o ponto que diferencia mais claramente o autêntico pensamento religioso do filosófico. A Filosofia é majoritariamente especulativa, contemplativa e racional (às vezes, estritamente lógica). Quando se preconiza uma práxis filosófica, comumente se tem movimentos políticos e não filosóficos. 
ps - para receber as atualizações do Despertador no Facebook: www.facebook.com/ODespertador

Comentários