Protesto: FAQ político e pragmático





O que é um protesto?
É um ato público legítimo para demonstrar aos adversários a força numérica de certos grupos em torno de uma agenda política. E principalmente uma forma de conquistar novos adeptos e impactar os meios de comunicação com mensagens estéticas ou verbais em prol dessa agenda.

Fazer um protesto é eficaz para a agenda política que se defende?
Tudo vai depender das externalidades do ato e da interpretação dada pelos meios de comunicação. O ato precisa emocionar ao máximo, e incomodar minimamente a rotina e os compromissos de trabalho das pessoas que não estão envolvidas nele. E deve ser organizado a tal ponto que sua estética seja impactante e objetiva, deixando pouco espaço para más interpretações da mídia (mas que haverá de toda forma).

O que aumenta a chance de um protesto ajudar sua agenda?
A reputação das lideranças que o promovem, a admiração que essas pessoas exercem em quem as reconhece como líderes, o comparecimento e propaganda de professores de ensino médio e universitário, o anúncio e participação de pessoas famosas de qualquer área e tidas como íntegras, o comportamento pacífico, a presença de crianças, o uso de uma estética semi-uniforme que ateste a concórdia em torno da agenda unificadora (dificultando o enviesamento da imprensa) e oradores realmente talentosos.

O que fazer hoje e dia 31/3?
Quem tem que trabalhar, trabalhar. Seria irresponsabilidade pedir para alguém arriscar seu sustento e seu serviço. Mas quem puder ir, sugerimos que vá. Outra sugestão, especialmente para os não querem associar sua participação a uma defesa dos partidos denunciados pela operação Lava Jato, é ir de preto. Assim, associa-se à solenidade do luto na cultura ocidental. No contexto de um protesto, isso deve ser usado para demonstrar não apenas autocrítica em relação à conjuntura político-econômica, mas também, e principalmente, serve como forma de alertar para o eminente assassinato da democracia, vítima que está sendo de um sistema de decisões judiciais de exceção ("Estado de exceção"), insuflado por uma oligarquia midiática bilionária, criminosa e sonegadora, e políticos hipócritas associados a interesses internacionais escusos do ramo de petróleo e energia. Essa cor também pode ajudar a não ser pela imprensa associado à reputação de algumas lideranças desmoralizadas que, querendo ou não, beneficiam-se do protesto. O essencial, de todo modo, é que se use qualquer cor não associada direta ou indiretamente ao PT ou PSDB. Por fim, mas não menos importante, como a adesão ao protesto deve ser maior que o repúdio causado pelos transtornos, procure causar o menor atraso possível no trânsito.

O protesto de hoje e do dia 31/3 tendem a dar certo e fortalecer sua agenda?


Friamente, achamos que não. Porque depende da capacidade do protesto aumentar emocionalmente a coesão dos grupos envolvidos e atrair pessoas indecisas em torno da agenda. Porém, apesar do pessimismo, estamos fazendo nossa parte para que dê. Além da conjuntura política adversa, sobretudo pela desmoralização do PT e seus aliados empresariais, o dia e horário marcados para esses protestos inviabilizam a participação numerosa e maximiza as externalidades. Sem contar a previsão do tempo chuvoso para hoje à tarde (em Recife). Esta é uma das piores conjunturas para alguém com preferências políticas chamadas de “esquerda progressista” reafirme suas ideias. Essas ideias, em síntese, são o estabelecimento de um pacto social, baseado na mínima concentração de renda possível, máxima igualdade de oportunidades e vigência de um transparente Estado Democrático de Direito que, além das atividades essenciais, atue contra a tendência à formação de oligopólios, e garanta direitos humanos e do trabalhador. Esse pacto difere tanto da esquerda anarquista como da direita liberal (utopias de inegável valor), porque essas duas são, no limite, contra a própria existência do Estado. Outras correntes existentes simplesmente fazem, via de regra, uso do Estado a favor de preferências que reforçam oligarquias. O cenário não está tranquilo nem muito menos favorável à esquerda progressista. O jogo de esconder o rei fracassou pela corrupção e o xeque está prestes a ser anunciado por políticos até mais experientes em desvio de dinheiro público (PMDB). Com uma derrota definitiva do Executivo, eles tomarão o poder. A terceira via é o complexo caminho da impugnação da candidatura vencedora de 2014 e realização de novas eleições.

Importante:

Como observação final, e escrita após a publicação desse post, queremos deixar claro que não se trata de pressupor culpa dos políticos investigados pela Polícia Federal. Mas tivemos a iniciativa de escrever orientados para as pessoas que se sentiam confusas justamente por estarem bem informadas, acompanhando os diversos lados desse comprovado assalto aos cofres públicos. Pessoas que não possuem confiança total na veracidade da defesa dos acusados, mas que por outro lado entendem que o devido processo legal e todos os trâmites democráticos devam ser respeitados. A seletividade salta aos olhos e perseguição política realizada pela grande imprensa é evidente. Por isso também que o leitor não deve subentender que negligenciamos a participação de políticos de outros partidos como o PP (partido mais envolvido e onde tudo começou, por volta do ano de 1997), PMDB (segundo na lista com mais políticos investigados) e  PSDB (com denúncias contra Aécio Neves e Anastasia). Mas estes partidos não são protagonistas dos dois protestos referidos. Como defendemos que se vá a um protesto menos por ser contra um  partido, como se fez nos domingos, e mais por ser a favor de uma agenda, decidimos nos concentrar política e pragmaticamente na autocrítica da esquerda.


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