O dharma (im)possível: as circunstâncias entre o sublime e a prática



Acompanhando as circunstâncias se exerce fundamental influência e nenhum erro. (I Ching, Hexagrama 17)


Às vésperas de mais um retiro, coordenado pelo prof. Fábio Hazin, senti que deveria oferecer uma reflexão acerca do que é ensinado e o que é aprendido ao longo de eventos como esse, em que há o encontro da mente com o “sublime”. O que chamo aqui de sublime é o tipo de compreensão de mundo que nasce do silêncio da experiência meditativa, mas que é compartilhado inevitavelmente por meio da oralidade.

A primeira coisa que deve ser entendida é que nenhum discurso existe isolado do contexto. Cada frase que pode ser dita por alguém possui um “lugar de fala”. Esse lugar é construído pela experiência indivisível de cada um e pelas emoções do momento presente. Sim, as emoções vigentes no instante da partilha. Porque é no instante, no infinitesimal e intangível momento do agora, que reside a única possibilidade de experimentação das emoções. Por isso o famigerado conselho de “viva o momento presente” depende por inteiro de um boa gestão, madura, das próprias emoções. As emoções não estão apenas sempre presentes, como elas são, por isso mesmo, do ponto de vista subjetivo, o próprio gérmen do presente. Tanto de quem se expressa, mesmo que de forma totalmente objetiva, quanto de quem apenas escuta.

É indispensável advertir que escutar é sempre mais complicado que falar. Justamente porque a fala pode ser, sim, factual, imparcial, fria. Mas a escuta dificilmente o é. Saber ouvir requer, portanto, ter desenvolvido a habilidade de viver o momento presente, capacidade de interpretação contextualizada dos mundos diferentes em interação, do compartilhamento circunstancial. Nisso jaz nosso maior desafio. Escutar alguém nos dizer “Um copo d’água, por favor.”, exige muito menos atenção para uma boa resposta prática que uma sentença do tipo: “Qualquer tipo de relacionamento no qual imaginamos que poderemos ser preenchidos pelo outro será certamente muito complicado.”, da monja Tenzin Palmo, por exemplo. Essa frase traz consigo tanta lucidez que qualquer pessoa internaliza com a impressão de mesma facilidade com que absorve o perfume de uma flor. Mas, diferente do pedido por água, o que foi dito não migra à prática de forma direta. O sublime só se mostra indiretamente na oralidade.

Explico. A sabedoria milenar dos grandes inciados, que Aldous Huxley chamou de “Filosofia Perene”, é um relicário de lições simples e ao mesmo tempo profundas sobre a subjetividade e convívio humanos. Lições extraídas a ferro e fogo do silêncio e do sofrimento, marcadas por aturada observação na vivência do samsara, o ciclo “infinito” de renascimentos para a iluminação. Quem tem a chance e o reconhecimento necessários para professar essas lições é inevitavelmente um tradutor do sublime. Trata-se de um lugar de fala de acesso raro, que muitas vezes nem o falante sequer tem vivência de tudo que precisa expressar. Não parece ser o caso da Tenzin Palmo, que passou quase 13 anos em retiro, dentre os quais 4 em silêncio e isolamento absolutos. Mas sem dúvida essa é a situação dos milhões que estão fazendo o mais complicado, como já dissemos: ouvir .

Diante do sublime há, dessa forma, inevitavelmente, muita confusão. O que soa como uma completa ironia, já que assim o compartilhamento se afasta do caminho esperado da iluminação e se aproxima mais da máxima italiana "Traduttore, traditore", usada pela primeira vez por Vittorio Imbriani, em 1869, referindo-se a Andrea Maffei, tradutor de Goethe, Schiller, Shakespeare, entre outras figuras “intraduzíveis”. Longe de desmerecer o trabalho precioso dos tradutores, o sublime simplesmente deixa de sê-lo quando ao ser ouvido seu impacto conduz a uma sensação de incapacidade ou, por outro lado, ao viés ingênuo de confirmação de condutas. Essa última atitude é uma solução pueril, um mecanismo de defesa do ego, apenas mascarando a confusão e mantendo a própria incapacidade de realização do sublime sob forte angústia. Grande parte dos ouvintes tendem a negligenciar toda a enorme distância dos lugares de fala, e os ruídos da interpretação da tradução que habitam entre o mestre e o discípulo. O ouvinte é arrebatado pela retórica, argumentos e pela evidência (o exemplo do mestre) que ornamentam a comunicação do ensinamento. Mas ao chegarem nas situações cotidianas de vida, percebem que ainda destoam bastante da “perfeição”, do fluxo leve e simples como pegar um copo d’água.

Uma solução possível para esse impasse é a aceitação de uma prática gradual, tendo como objetivo não o lugar de fala do mestre, mas reconhecer e aperfeiçoar um lugar de maestria própria das emoções no cotidiano que se tem pari passu o que se quer. É a prática do possível, desatrelada de grandes expectativas, uma prática adaptada pouco a pouco ao lugar de fala... do ouvinte, como se ele pudesse assumir o lugar de mestre, mas a partir de onde está, na melhor performance dentro das suas circunstâncias, sem culpas.

Ter serenidade para enxergar qual o máximo nível da prática a partir de insights do mestre é a chave. A responsabilidade fica sendo menos decodificar o sublime que reconhecer o momento presente, as suas restrições, acordos, desejos íntimos, trabalhos etc. Feito isso, resta somente cuidado com a forma mais adequada de viver, conviver e compartilhar tudo que for possível.



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ps. não há fórmulas que nos desobriguem da missão de autoconhecimento, mas se algo assim facilita a busca, eu apontaria “não fazer com os demais o que e como não se deseja que façam conosco”. Esse aforismo, uma versão negativa da regra de ouro de ética da reciprocidade, também ajuda a atrair o foco para o as circunstâncias do sujeito, livrando-nos de qualquer culpa por um eventual fracasso na ação já que ela poderá sempre ser refeita, perdoada, com calma e humildade. Em outras palavras, deixar de fazer algo muitas vezes é o possível, mas fazer algo que nos foi ensinado pode estar além das capacidades de uma pessoa em determinada circunstância. A prática do sublime, com os devidos cuidados na forma com lidamos com as outras pessoas, seguirá até atingir seu ponto máximo no qual o melhor indicador é a sensação de alívio, paz e disposição em servir. Isso é basicamente conhecer o ritmo adequado de ajudar a si mesmo para ajudar quem mais precisar.

ps2. "Gratidão a todos os mestres tradutores. Cada um assimila o dharma de uma maneira a partir de suas circunstâncias e condicionamentos. Não se pode percorrer o caminho até que você se torne o próprio caminho." , comentário gracioso de um leitor-irmão por meio das redes sociais. Merecia deixar registrado aqui.

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