"Pessoas medíocres"







“Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol,
e eis que tudo era vaidade e aflição de espírito.”
(Ecl 1, 14)


Há um comportamento, muito frequente entre os participantes de programas de pós-graduação no Brasil (às vezes antes disso, entre os recém-desfraldados que tomam como grupo de referência professores empolados), que é o de apontar as pessoas que seriam “medíocres”. 

Acontece que, à medida que um sujeito é envolvido pelas ilusões da vida acadêmica, um sintoma atávico se manifesta: a afetação intelectualóide. Trata-se de uma doença grave. Mas tem cura. Já vi quem tornou ao mundo dos sãos mortais antes de partir para sempre dele. O antídoto, contudo, deve ser tomado logo no início da enfermidade. 

Uma dose de prudência, combinada com a ampliação dos horizontes do pensamento para além da perspectiva egocentrada. Afinal, o mundo é vasto, ou é o “vasto mundo”, como dizia o poeta que o suportava sobre seus ombros.

Ironicamente, as ilusões universitárias não nos fisgam intelectualmente. Elas entorpecem nosso intelecto por meio da satisfação de necessidades sociais básicas, principalmente a sede beluína por reconhecimento. É desse equívoco que deriva a ilusão. Não há relação entre entender como algo funciona e ser mais valoroso que os que não entendem, ou entendem de outras coisas. Qualquer tentativa de rotular pessoas nesse sentido é inválida, posto que todos somos leigos em alguma medida. 

Todavia, dado que as afinidades intelectualóides agregam-se em torno de algumas afinidades estéticas, a afetação segue para o menosprezo de outros gostos e preferências. Só o seleto grupo sabe o que é bom e o que deve ser apreciado. O que seria capaz de gerar prazer ou fruição, enfim. O resto é resto. A maioria é burra. Toda moda é desprezível. Afinal, quem gosta realmente do Big Brother não é mesmo uma pessoa medíocre?

Na grande área das Humanidades a afetação ainda é mais sintomática. Tal como está estabelecida hoje, a busca pela solução dos seus problemas de pesquisa se opera de maneira tão neurótica quanto confusa. Mazelas catalisadas pela falta de critérios claros e a fragilidade dos dados. No mais das vezes, o enciclopedismo é o resíduo antiquado que sustenta a imagem de ciência. 

A verdade é verdade porque alguém disse que é. É o vezo das dissertações e teses publicadas em ritmo crescente e inversamente proporcional à sua qualidade relativa. Uma moda que persiste no tempo. Produtos de anos, de árvores cortadas, miolos torrados e, muitas vezes, dinheiro público, cujo maior impacto social é contribuir para o aumento da população de traças, dada a fartura na reposição de alimento.

Da mesma forma que a razão insiste que a mágica de um ilusionista não passa de um truque, ela pode, sim, escapar à sedução do falso fulgor acadêmico. A torre de marfim é sombria e fria, da mesma forma que suas milhões de referências mortas. 

Aprisiona à medida que insufla a vaidade com sua solidão de espelhos. Na subida, a cada novo degrau, o sacrifício do tempo de vida e felicidade se torna tão evidente quanto insuportável. Feixes de luz entram pelas janelas do caminho helicoidal e ofuscam o douto orgulho por alguns momentos. Mas já tão longe, tanto do solo quanto do firmamento, o amor-próprio resta contra tentações suicidas.

A afetação intelectualóide é compreensível nessas circunstâncias. A sede de reconhecimento do início dessedenta-se agora em águas do Letes. A ira, então, cumpre seu papel de camuflar a inveja do ser aprisionado, que vocifera sua frustração através de impropérios e xingamentos aos demais. Enquanto isso, apodrece carrancudo, crendo que todos os homens livres estão abaixo de si.



. Romero Maia