"Eu sei que não terei sucesso.
Tentar forçar os resultados somente
aumentaria a confusão. Não será
melhor desistir e parar de me esforçar?
Mas, se eu não me esforçar,
quem o fará?" (Chuang-Tzu)
Ninguém
precisa de mais evidências para provar que o cidadão médio
simplesmente não se sente bem em tomar as rédeas de processos
políticos. Processos nos quais são necessários esforços de
mobilização coletiva, planejamento e ação voluntária e
coordenada em busca da conquista ou garantia de direitos. Por não se
sentir bem, o cidadão os delega. Mais que isso, ignora-os na justa
busca de sua felicidade no curto prazo.
Não
se sabe ainda o quanto essa ignorância tem de raízes naturais
(parte da Biologia Evolucionista entende que o ser humano seria uma
máquina de sobrevivência individual) ou apenas culturais. Só
sabemos que todas as pesquisas relevantes apontam na mesma direção:
a apatia política é regra. Algumas delas, como a levada a efeito
por Edward Epstein, sugerem que essa paralisia é consequência de
arranjos institucionais que dificultam mudanças nas políticas
econômica e fiscal. Ou seja, uma reforma política e emendas
constitucionais aumentariam a participação política das pessoas.
Eu,
particularmente, não encontrei evidências que sustentem essa tese.
Basta olhar as taxas de abstenção nos países onde o voto não é
obrigatório. Na Europa, um continente marcado pelo nacionalismo e
processos históricos de projeção mundial que, acredita-se,
deveriam colaborar para a promoção da participação, as eleições
para o Parlamento Europeu recebem pouquíssimos interessados. Em
média, mais da metade dos eleitores não comparecem às urnas. Foi o
que aconteceu em 2009. No meio de uma crise, vale salientar. E, a
título de rápida comparação, em 2004, a República Eslovaca
registrou quase 85% de abstenções, logo após ter sido aceita no
bloco econômico, ou seja, em clima de festa.
Epstein
foi cuidadoso e propôs uma teoria da participação localizada,
restrita ao Chile. Portanto, nada disso chega a refutar completamente
seu trabalho. Fica claro, contudo, que ele tem uma crença um pouco
romântica acerca do cidadão na polis. O que se pode
dizer, ante os dados, é que as pessoas simplesmente não têm
interesse, e a participação política é um fenômeno que só se
manifesta de forma minimamente duradoura numa parcela ínfima de uma
dada população.
Alguns
podem tentar reduzir a discussão aos custos da participação. O que
seria um equívoco, porque os agentes dos movimentos políticos
populares variam tanto com relação à renda que outras variáveis
parecem ser mais úteis para explicar os arroubos participativos.
Tais como: escolaridade e frequência de certo tema alarmante nos
meios de comunicação de massa. As recentes manifestações "contra a
corrupção" respondem bem a um modelo desse tipo. De toda forma, o
número de pessoas que se envolvem na ação política espontânea e
regular ainda é menor que os poucos que optam por votar. Sem contar
que são ações que se desenvolvem em várias frentes, de forma
desconcentrada e muitas vezes conflitante.
É
por isso que processos que reclamam mudanças político-econômicas
para melhoria da qualidade de vida das pessoas comuns se dão (e
historicamente se deram) num ritmo bastante lento. Vê-se um embate
desequilibrado. De um lado, uma minoria com certa instrução e dedicada, mas
com dificuldades de acesso a recursos, desunida e sem tempo: a classe
média. Vale lembrar que classe média é mais que um amontoado
espremido dentro de dois limites de renda. Classe média é nível
instrução, estilo de vida e posicionamento no mercado.
De outro,
grupos também pequenos, mas que concentram quase todos os recursos
produzidos pela população. Inclusive os recursos humanos. O que
pode explicar parte da baixa participação política. Leva-nos a
entendê-la como "apatia forçada". Alguém que está na
situação de ser um “recurso humano contratado” sente receio de ir de encontro aos interesses do contratante.
A metade de tudo que se produz de bens e
serviços no planeta faz parte do patrimônio privado de apenas
2% da população que mora nele. A tão endeusada “competição” é um
dever de 98% da população mundial que corre atrás da metade que
sobra disponível para a sobrevivência. Percebe como os
assalariados são tolos quando brigam entre si por "empregabilidade"?
Enquanto a condição de assalariado deveria ser uma
característica suficiente para fazer alguns grupos se unirem?
Antes
que me perguntem, não vejo saída fácil. No Brasil, a recente
conquista de 10% do PIB para educação ventila bons ares de
redistribuição. Tem de ser comemorada. Mas não basta colocar dinheiro na máquina. É preciso reforçar ao máximo a
impessoalidade nos gastos dos governos, o que implica concursos
públicos idôneos. A impessoalidade e a garantia de oportunidade similares de concorrência, utopias unidas à
máxima transparência possível, resultam no bom uso do dinheiro
público, propiciando as condições para uma educação de qualidade. Da mesma forma, não
se pode esperar mais pela diminuição da carga tributária sobre as
camadas pobres. Os cidadãos de baixa renda são os que mais arcam,
proporcionalmente ao que auferem, segundo
o IPEA. Outrossim, ainda temos o problema dos super-salários na administração pública. Talvez os 10% dos
contracheques com maiores salários-brutos nos três poderes não fazem sentido em termos de moralidade.
Poderia
listar outras propostas positivas, desde financiamento público
de campanhas eleitorais, passando pelo controle das verbas de
publicidade dos governos, até planejamento familiar. Assim, mesmo
com a dívida abocanhando cerca de 50% do que país arrecada,
teríamos mais recursos para que cada cidadão ficasse 12
anos consecutivos, pelo menos, numa escola de
qualidade; e outras maravilhas como imaginar todos deixando seus
carros em casa e usando um transporte coletivo abundante e
confortável nos horários de pico. Mas quem vai se mexer por isso?
As pesquisas dizem: quase ninguém. Sem
mais.
. Romero Maia