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O
que esperar de filósofo ultraconservador e frequentemente hostil?
Autor de uma obra recheada de pensamentos ásperos, xingamentos e uma
espécie de raiva erudita, Luz Felipe Pondé realiza no rápido texto
abaixo um desabafo sobre seu cotidiano de trabalho. Se defronta com o
paradoxo de se sentir preso numa “gaiola de ferro” justamente
estando num lugar que necessita de extrema liberdade
(independência)para realizar seu propósito (pelo menos em
princípio) de criação, inovação e crítica.
Para
Pondé, a colonização mental, a afetação, a burocratização e o
modelo produtivista terminaram por corroer todas as fundações da
ideia de Universidade, enferrujando principalmente as Humanidades.
Apesar da raiva costumeira, Pondé conseguiu ser um pouco sábio
neste artigo, e não apenas inteligente, como de costume. Gostei
bastante porque vi que realmente podemos ser surpreendidos
positivamente pelas pessoas. Fico satisfeito em ver que até um reacionário consegue perceber que suas
próprias vestimentas estão fedendo, sem procurar nos outros a origem do odor. Mas não achava que seria ele capaz
de sair falando isso por aí, embora todos já sentissem o cheiro.
Uma questão de orgulho que poucos superam, principalmente os que viram professores universitários. Bem, justamente ele
superou.
O
Pondé abriu o jogo. Tocou fogo em sua própria casa para, enfim,
sentir-se livre. Espero que as chamas não terminem por consumi-lo.
Suspeito que só se salvará quem realmente conseguir sair, senão de
corpo mas espiritualmente, desse “inferno ponderiano”. Um terreno
fértil para o excesso de vaidade. Nascedouro de criaturas
ausentes, abusadas e desconfiadas. Nicho de proliferação da
mediocridade entre soberbos. Um reprodução de “nulidades”
em grande escala. Poderia ser diferente. Uma pena.
O
filósofo do martelo na academia
"Eu
lamento agora que naqueles dias eu ainda não tinha coragem (ou
imodéstia?) para permitir a mim mesmo, de todas as formas, minha
própria língua individual..."
Estas
palavras são de Friedrich Nietzsche (1844-1900), em tradução
livre, do seu "Tentativa de Autocrítica", opúsculo
escrito por ele como autocrítica, em 1886, ao seu livro "Nascimento
da Tragédia" (primeira edição em 1872). A edição de 1886
ganhou como acréscimo ao título o subtítulo "Helenismo e
Pessimismo".
Nietzsche
foi minha primeira paixão na faculdade de filosofia da USP. Na
época, recém-saído da medicina e em formação para ser
psicanalista, o que nunca aconteceu, eu colocava em diálogo
Nietzsche e Freud.
O
filósofo do martelo me é inesquecível e continuo pensando com o
martelo até hoje. Vocação é destino. Este trecho específico
carrega em si muito do que Nietzsche significa para um filósofo
profissional como eu, em constante mal-estar com o que a vida
universitária se transformou, em épocas de produtividade industrial
do ensino superior.
A
fala de Nietzsche vai de encontro ao modo como somos formados, não
sem razão, nas boas faculdades de filosofia: somos formados para não
sermos originais. Hoje, entendo que qualquer originalidade possível
em filosofia é algo conquistado a duras penas, assim como a
santidade ou os movimentos precisos de uma dança --metáfora cara ao
filósofo do martelo.
Lembro-me
de uma das primeiras aulas em que um dos grandes professores que tive
nos disse algo assim: "Você não está aqui para achar nada,
antes de achar algo estude, e descobrirá que muita gente já pensou
o que você pensa, e muito melhor do que você, antes de você."
Esta
dureza acaba por fazer de nós pessoas menos opinativas e mais
rigorosas, e isso é sem dúvida fundamental. Esta é a diferença
entre pensar filosoficamente e pensar como senso comum. Vale lembrar
que do ponto de vista da filosofia, as ciências humanas em geral são
senso comum.
Rigor
nada tem a ver com o que a academia se tornou com o passar dos anos:
um antro de política lobista e de burocracia da produtividade a
serviço da morte do pensamento. A universidade está morta e só não
sente o cheiro do cadáver quem tem vocação para se alimentar de
lixo. Fosse Kafka vivo e escrevesse um conto sobre nós, acadêmicos,
nos colocaria com cara de ratos.
Imaginem
Nietzsche preenchendo o currículo Lattes, uma plataforma informática
que supostamente democratiza o acesso à produtividade da comunidade
acadêmica, ao mesmo tempo em que normatiza e quantifica esta
produtividade. Na prática, o Lattes serve para nos tomar tempo
(sempre dá pau) e acumular platitudes e repetições que visam a
quantificação de um quase nada de valor.
Agora
imaginem Nietzsche às voltas com relatórios anuais da Capes, que
junto com o Lattes, institucionaliza e quantifica esta mesma
produtividade de um quase nada de valor.
Não
existiria filosofia se nossos patriarcas, de Platão a Nietzsche
(para citar dois grandes), tivessem que preencher o Lattes, fazer
relatórios Capes ou serem "produtivos". Todos seriam o
que, aos poucos, nos transformamos: burocratas mudos da própria
irrelevância. Analfabetos do pensamento.
Uma
das formas de sobreviver a este processo de produtividade de massa é
obrigar nossos alunos a pesquisar aquilo que não querem, de uma
forma que não querem, a fim de garantir verbas institucionais de
pesquisa em grande escala. Esmagamos a criatividade e as intenções
dos alunos fazendo deles uma infantaria estatística. A universidade
mente: quer formar rebanhos dizendo que defende a liberdade de
pensamento.
Lutamos
dia a dia para conseguirmos sobreviver aos montes de formulários e
demandas do mundo dos ratos. A universidade aos poucos sucumbe aos
efeitos colaterais de um mundo que, como diria Nietzsche, vomita
"ideias modernas". Os processos de democratização do
saber, como suspeitava nosso filósofo, são processos de produção
de nulidades em grandes quantidades.
Mais
do que nunca é urgente sermos corajosos e imodestos para acharmos
nossa própria língua individual.
Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/1180196-o-filosofo-do-martelo-na-academia.shtml
ps:
esse texto foi uma indicação do grande amigo, gaúcho progressista,
pensador independente e pesquisador do Instituto Paranaense de
Desenvolvimento Econômico e Social (IPARDES), Leonildo Souza.