Acompanhando
as circunstâncias se exerce fundamental influência e nenhum erro.
(I Ching, Hexagrama 17)
Este texto pretende oferecer uma análise dos limites que encontramos ao entrarmos em contato com informações espirituais ou de elevação da consciência, seja num retiro, seja em palestras ou livros. É uma reflexão baseada em repetidas observações sobre o que é ensinado e o que se tenta aprender nessas interações, em que há o encontro da
mente do participante com o "discurso do sublime”. O que chamo aqui de sublime é o tipo de
compreensão de mundo que vem, por sua vez, do silêncio da experiência meditativa, mas
que é compartilhado inevitavelmente por meio da oralidade.
A
primeira coisa que deve ser entendida é que nenhum discurso existe
isolado do contexto. Cada frase que pode ser dita por alguém possui
um “lugar de fala”. Esse lugar é construído pela experiência
indivisível de cada um e pelas emoções do momento presente. Sim,
as emoções vigentes no instante da partilha. Porque é no instante,
no infinitesimal e intangível momento do agora, que reside a única
possibilidade de experimentação das emoções. Por isso o
famigerado conselho de “viva o momento presente” depende por
inteiro de um boa gestão, madura, das próprias emoções. As
emoções não estão apenas sempre presentes, como elas são, por
isso mesmo, do ponto de vista subjetivo, o próprio gérmen do
presente. Tanto de quem se expressa, mesmo que de forma totalmente
objetiva, quanto de quem apenas escuta.
É indispensável advertir que escutar é sempre mais complicado que
falar. Justamente porque a fala pode ser, sim, factual, imparcial,
fria. Mas a escuta dificilmente o é. Saber ouvir requer, portanto,
ter desenvolvido a habilidade de viver o momento presente, capacidade
de interpretação contextualizada dos mundos diferentes em
interação, do compartilhamento circunstancial. Nisso jaz nosso
maior desafio. Escutar alguém nos dizer “Um copo d’água, por
favor.”, exige muito menos atenção para uma boa resposta
prática que uma sentença do tipo: “Qualquer tipo de
relacionamento no qual imaginamos que poderemos ser preenchidos pelo
outro será certamente muito complicado.”, da monja Tenzin
Palmo, por exemplo. Essa frase traz consigo tanta lucidez que
qualquer pessoa internaliza com a impressão de mesma facilidade com
que absorve o perfume de uma flor. Mas, diferente do pedido por água,
o que foi dito não migra à prática de forma direta. O sublime só se mostra indiretamente na oralidade.
Explico.
A sabedoria milenar dos grandes inciados, que Aldous Huxley chamou
de “Filosofia Perene”, é um relicário de lições simples e ao
mesmo tempo profundas sobre a subjetividade e convívio humanos.
Lições extraídas a ferro e fogo do silêncio e do sofrimento,
marcadas por aturada observação na vivência do samsara, o ciclo “infinito” de renascimentos para a iluminação. Quem tem a
chance e o reconhecimento necessários para professar essas lições
é inevitavelmente um tradutor do sublime.
Trata-se de um lugar de fala de acesso raro, que muitas vezes nem o
falante sequer tem vivência de tudo que precisa expressar. Não
parece ser o caso da Tenzin Palmo, que passou quase 13 anos em
retiro, dentre os quais 4 em silêncio e isolamento absolutos. Mas
sem dúvida essa é a situação dos milhões que estão fazendo o
mais complicado, como já dissemos: ouvir .
Diante
do sublime há, dessa forma, inevitavelmente, muita confusão. O que
soa como uma completa ironia, já que assim o compartilhamento se
afasta do caminho esperado da iluminação e se aproxima mais da
máxima italiana "Traduttore, traditore", usada pela
primeira vez por Vittorio Imbriani, em 1869, referindo-se a Andrea
Maffei, tradutor de Goethe, Schiller, Shakespeare, entre outras
figuras “intraduzíveis”. Longe de desmerecer o trabalho precioso
dos tradutores, o sublime simplesmente deixa de sê-lo quando ao ser
ouvido seu impacto conduz a uma sensação de incapacidade ou, por
outro lado, ao viés ingênuo de confirmação de condutas. Essa
última atitude é uma solução pueril, um mecanismo de defesa do
ego, apenas mascarando a confusão e mantendo a própria
incapacidade de realização do sublime sob forte angústia. Grande
parte dos ouvintes tendem a negligenciar toda a enorme distância dos
lugares de fala, e os ruídos da interpretação da tradução que
habitam entre o mestre e o discípulo. O ouvinte é arrebatado pela
retórica, argumentos e pela evidência (o exemplo do mestre) que
ornamentam a comunicação do ensinamento. Mas ao chegarem nas
situações cotidianas de vida, percebem que ainda destoam bastante
da “perfeição”, do fluxo leve e simples como pegar um copo
d’água.
Uma
solução possível para esse impasse é a aceitação de
uma prática gradual, tendo como objetivo não o lugar
de fala do mestre, mas reconhecer e aperfeiçoar um
lugar de maestria própria das emoções no cotidiano que se tem pari
passu o que se quer. É a prática do possível, desatrelada de
grandes expectativas, uma prática adaptada pouco a pouco ao lugar de
fala... do ouvinte, como se ele pudesse assumir o lugar
de mestre, mas a partir de onde está, na melhor performance dentro
das suas circunstâncias, sem culpas.
Ter
serenidade para enxergar qual o máximo nível da prática a partir
de insights do mestre é a chave. A responsabilidade fica
sendo menos decodificar o sublime que reconhecer o momento presente,
as suas restrições, acordos, desejos íntimos, trabalhos etc. Feito
isso, resta somente cuidado com a forma mais adequada de viver,
conviver e compartilhar tudo que for possível.
***
ps. não
há fórmulas que nos desobriguem da missão de autoconhecimento, mas
se algo assim facilita a busca, eu apontaria “não fazer com os
demais o que e como não se deseja que façam conosco”. Esse
aforismo, uma versão negativa da regra de ouro de ética da
reciprocidade, também ajuda a atrair o foco para o as
circunstâncias do sujeito, livrando-nos de qualquer culpa por um
eventual fracasso na ação já que ela poderá sempre ser refeita,
perdoada, com calma e humildade. Em outras palavras, deixar de
fazer algo muitas vezes é o possível, mas fazer algo que nos
foi ensinado pode estar além das capacidades de uma pessoa em
determinada circunstância. A prática do sublime, com os devidos
cuidados na forma com lidamos com as outras pessoas, seguirá até
atingir seu ponto máximo no qual o melhor indicador é a sensação
de alívio, paz e disposição em servir. Isso é basicamente
conhecer o ritmo adequado de ajudar a si mesmo para ajudar quem mais
precisar.
ps2. "Gratidão a todos os mestres tradutores. Cada um assimila o dharma de uma maneira a partir de suas circunstâncias e condicionamentos. Não se pode percorrer o caminho até que você se torne o próprio caminho." , comentário gracioso de um leitor-irmão por meio das redes sociais. Merecia deixar registrado aqui.
ps2. "Gratidão a todos os mestres tradutores. Cada um assimila o dharma de uma maneira a partir de suas circunstâncias e condicionamentos. Não se pode percorrer o caminho até que você se torne o próprio caminho." , comentário gracioso de um leitor-irmão por meio das redes sociais. Merecia deixar registrado aqui.
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