Abaixo, Jung falando de ciência, acaso e Estatística no prefácio de 1949 ao "I Ching", na edição do clássico traduzida pelo sinólogo alemão Richard Wilhelm. Uma leitura um pouco extensa para um simples prefácio mas que, pelo brilhantismo, serve quase como um outro pequeno livro anexado à obra:
Não sendo um sinólogo, meu
prefácio ao Livro das Mutações terá que ser um testemunho da
experiência pessoal com esse grande e único livro. Ao mesmo tempo
terei a grata oportunidade de homenagear também a memória de meu
falecido amigo Richard Wilhelm. Ele próprio tinha profunda
consciência da importância cultural de sua tradução do I Ching,
versão sem paralelo no mundo Ocidental.
Se o significado do Livro
das Mutações fosse de fácil apreensão, a obra não precisaria de
um prefácio. Mas sem dúvida esse não é o caso, já que há tantos
pontos enigmáticos em seu conteúdo que os estudiosos ocidentais
tenderam a considerá-lo como um conjunto de "fórmulas mágicas"
que, ou seriam abstrusas demais para serem inteligíveis, ou
careceriam de todo valor. A tradução de Legge do I Ching, até
agora a única versão disponível em inglês, pouco contribuiu para
tornar a obra mais acessível à mente ocidental.2 Wilhelm,
entretanto, fez o esforço possível para abrir o caminho à
compreensão do simbolismo do texto. Ele tinha condições de
fazê-lo, pois a filosofia e o uso do I Ching foram-lhe ensinados
pelo venerável sábio Lao-Nai-hsüan; além disso, durante um
período de vários anos havia posto em prática a peculiar técnica
do oráculo. A apreensão do sentido vivo do texto dá à sua versão
do I Ching uma profundidade de perspectiva que um conhecimento
exclusivamente acadêmico da filosofia chinesa nunca poderia
proporcionar.
Tenho uma enorme dívida
para com Wilhelm pelo esclarecimento que trouxe à complicada
problemática do I Ching e também pelas intuições relativas à sua
aplicação prática. Por mais de 30 anos, interessei-me por essa
técnica oracular, ou método de explorar o inconsciente, que
pareceu-me de excepcional significado. Já estava bastante
familiarizado com o I Ching quando conheci Wilhelm no começo da
década de 20; ele confirmou o que eu já sabia, além de ensinar-me
muito mais.
Desconheço a língua
chinesa e nunca estive na China. Posso afirmar ao meu leitor que é
muito difícil encontrar o correto modo de acesso a esse monumento do
pensamento chinês tão distante de nossa forma de pensar. De modo a
poder compreender de que trata esse livro, é indispensável deixar
de lado certos preconceitos da mente ocidental. É curioso que um
povo tão dotado e inteligente como o chinês nunca tenha
desenvolvido o que chamamos ciência. Nossa ciência, entretanto, é
baseada no princípio da causalidade, o qual é considerado uma
verdade axiomática. Mas uma grande mudança está ocorrendo em nosso
ponto de vista. O que a "Crítica da Razão Pura" de Kant
não conseguiu, está sendo realizado pela física moderna. Os
axiomas da causalidade estão sendo abalados em seus fundamentos:
sabemos agora que o que denominamos leis naturais são meramente
verdades estatísticas que supõem, necessariamente, exceções.
Ainda não nos apercebemos que necessitamos do laboratório com suas
decisivas limitações para demonstrar a validade invariável das
leis naturais. Se deixarmos a natureza agir, veremos um quadro muito
diferente: o acaso vai interferir total ou parcialmente em todo o
processo, tanto assim que, em circunstâncias naturais, uma seqüência
de fatos que esteja em absoluta concordância com leis específicas
constitui quase uma exceção.
A mente chinesa, como a
vejo trabalhando no I Ching, parece preocupar-se exclusivamente com o
aspecto casual dos acontecimentos. O que chamamos de coincidência
parece ser o interesse primordial desta mente peculiar e o que
cultuamos como causalidade passa quase desapercebido. Devemos admitir
que há muito a dizer a respeito da imensa importância do acaso. Uma
quantidade incalculável do esforço do homem visa a combater e
limitar os incômodos ou perigos representados pelo acaso.
Considerações teóricas de causa e efeito freqüentemente parecem
fracas e pobres em comparação com os resultados práticos do acaso.
É correto dizer que o cristal de quartzo é um prisma hexagonal. A
afirmação é verdadeira quando se considera um cristal ideal;
entretanto, na natureza não se encontram dois cristais exatamente
iguais, ainda que todos sejam inequivocadamente hexagonais. A forma
concreta, no entanto, parece interessar mais ao sábio chinês que a
forma ideal. O emaranhado de leis naturais que constitui a realidade
empírica é mais significativo para ele que uma explicação causal
de fatos que, além disso, em geral devem ser separados uns dos
outros para que possam ser adequadamente tratados.
A maneira como o I Ching
tende a encarar a realidade parece não favorecer nossa maneira
causal de proceder. O momento concretamente observado apresenta-se à
antiga visão chinesa, mais como um acontecimento fortuito que o
resultado claramente definido de um concordante processo causal em
cadeia.
A questão que interessa parece ser a configuração formada
por eventos casuais no momento da observação e de modo nenhum as
hipotéticas razões que aparentemente justificam a coincidência.
Enquanto a mente ocidental cuidadosamente examina, pesa, seleciona,
classifica e isola, a visão chinesa do momento inclui tudo até o
menor e mais absurdo detalhe, pois tudo compõe o momento observado.
Assim ocorre quando são
jogadas as três moedas, ou quando se contam as 49 varetas; esses
detalhes casuais entram no quadro do momento de observação e fazem
parte dele - uma parte que para nós é insignificante, porém para a
mente chinesa é de suma importância. Seria para nós uma afirmação
banal e quase sem sentido (pelo menos à primeira vista) dizer que
tudo que acontece num determinado momento tem inevitavelmente a
qualidade peculiar àquele momento. Esse não é um argumento
abstrato mas, ao contrário, muito prático. Alguns especialistas são
capazes de determinar só pelo aspecto, gosto e comportamento de um
vinho a sua procedência e o ano de sua origem. Existem conhecedores
de antigüidades que podem afirmar com extraordinária precisão a
data, o lugar de origem e o autor de um "objet d´art'' ou de um
móvel, simplesmente olhando-os. Existem astrólogos que podem dizer
a uma pessoa, sem nenhum conhecimento prévio, a data de seu
nascimento, qual era a posição do sol e da lua, e qual o signo que
se encontrava sobre o horizonte no momento de seu nascimento. Diante
de tais fatos é preciso admitir que os momentos podem deixar marcas
duradouras.
Em outras palavras, quem
quer que tenha inventado o I Ching estava convencido de que o
hexagrama obtido num determinado momento coincidia com esse momento
tanto em qualidade quanto em tempo. Para ele o hexagrama era o
intérprete do momento no qual era tirado - mais que as horas do
relógio ou as divisões de um calendário -, uma vez que o hexagrama
era compreendido como sendo o indicador da situação essencial que
prevalecia no momento de sua origem.
Essa suposição envolve um
certo princípio curioso que denominei sincronicidade,3 conceito este
que formula um ponto de vista diametralmente oposto ao da
causalidade. A causalidade enquanto uma verdade meramente estatística
não absoluta é uma espécie de hipótese de trabalho sobre como os
acontecimentos surgem uns a partir dos outros, enquanto que, para a
sincronicidade, a coincidência dos acontecimentos, no espaço e no
tempo, significa algo mais que mero acaso, precisamente uma peculiar
interdependência de eventos objetivos entre si, assim como dos
estados subjetivos (psíquicos) do observador ou observadores.
O pensamento tradicional
chinês apreende o cosmos de um modo semelhante ao do físico
moderno, que não pode negar que seu modelo do mundo é uma estrutura
decididamente psicofísica. O fato microfísico inclui o observador
tanto quanto a realidade subjacente ao I Ching abrange a
subjetividade, isto é, as condições psíquicas dentro da
totalidade da situação momentânea. Assim como a causalidade
descreve a seqüência dos acontecimentos, a sincronicidade, para a
mente chinesa, lida com a coincidência de eventos.
O ponto de vista causal nos
relata uma dramática história sobre como D chegou à existência:
originou-se de C que existia antes de D, e C, por sua vez, teve um
pai, B, etc. Por outro lado, a visão da sincronicidade tenta
produzir uma representação igualmente significativa da
coincidência. Como é que A, B, C, D, etc. aparecem todos no mesmo
momento e no mesmo lugar? Isso acontece, em primeiro lugar, porque os
eventos físicos A e B são da mesma qualidade dos eventos psíquicos
C e D, e ainda porque todos são intérpretes de uma única e mesma
situação momentânea. Assume-se que a situação representa um
quadro legível ou compreensível.
Os 64 hexagramas do I Ching
são o instrumento pelo qual se pode determinar o significado de 64
situações diferentes, porém típicas. Essas interpretações são
equivalentes a explicações causais. A conexão causal é
estatisticamente necessária e pode, portanto, ser submetida à
experiência. Uma vez que as situações são únicas e não podem
ser repetidas, não parece ser possível, em condições normais,4
realizar experiências com a sincronicidade. No I Ching, o único
critério de validade da sincronicidade é a opinião do observador
de que o texto do hexagrama eqüivale a uma interpretação fiel de
sua condição psíquica. Supõe-se que a queda das moedas ou o
resultado da divisão do conjunto de varetas de caule de milefólio é
o que necessariamente deve ser uma "situação" dada, já
que qualquer coisa que aconteça naquele momento pertence a ele como
parte indispensável do quadro. Se um punhado de fósforos é jogado
no chão, eles formam o padrão característico daquele momento.
Porém, uma verdade tão óbvia como essa só revela seu caráter
significativo se for possível ler o padrão e verificar sua
interpretação, em parte pelo conhecimento, do observador, da
situação objetiva e da subjetiva e, em parte, pelo caráter dos
fatos subsequentes.
Obviamente esse não é um procedimento que
atraia uma mente crítica, acostumada à verificação experimental
de fatos ou à evidência factual. Mas para alguém que goste de
olhar o mundo segundo a perspectiva da antiga China, o I Ching pode
exercer alguma atração.
Meu argumento, tal como foi
exposto acima, jamais, é claro, ocorreu à mente chinesa. Ao
contrário, de acordo com a antiga tradição, são "agentes
espirituais", atuando de uma forma misteriosa, que fazem com que
as varetas de caule de milefólio dêem uma resposta significativa.5
Esses poderes constituem como que a alma viva do livro, que é,
portanto, uma espécie de ser vivo, e a tradição supõe que se
podem fazer perguntas ao I Ching e esperar receber respostas
inteligentes. Ocorreu-me, portanto, que talvez interesse ao leitor
não iniciado ver o I Ching operando. Com esse propósito realizei
uma experiência rigorosamente de acordo com a concepção chinesa:
personifiquei, de certo modo, o livro, perguntando seu julgamento
sobre sua situação atual, isto é, sobre minha intenção de
apresentá-lo à mente ocidental. Ainda que esse procedimento se
enquadre perfeitamente nas premissas da filosofia Taoísta, para nós
ele parece demasiado extravagante. Entretanto, nem mesmo o insólito
dos delírios doentios ou superstições primitivas jamais me
chocaram. Sempre tentei permanecer livre de preconceitos e curioso -
rerum novarum cupidus. Por que não ousar um diálogo com um antigo
livro que se propõe como algo vivo? Não pode haver mal nenhum
nisso, e o leitor poderá observar um procedimento psicológico que
tem sido posto em prática vezes e mais vezes através dos milênios
da civilização chinesa, representando para homens como Confúcio ou
Lao-tse tanto a expressão suprema da autoridade espiritual quanto um
enigma filosófico. Utilizei o método de moedas e a resposta obtida
foi o hexagrama 50 - Ting, O CALDEIRÃO.
De acordo com a maneira
como foi formulada minha pergunta, deve-se entender o texto do
hexagrama como se o próprio I Ching fosse a pessoa que fala. Assim,
ele descreve a si próprio como um caldeirão, isto é, como um
recipiente de ritual contendo comida preparada. Deve-se entender
comida, aqui, como alimento espiritual. Wilhelm diz a respeito:
"O Ting, enquanto um
utensílio pertencente a uma civilização refinada, sugere o cuidado
e a alimentação dos homens capazes, o que resulta em benefício da
nação... Aqui a cultura atinge sua culminância na religião. O
Ting serve para a oferenda de sacrifícios a Deus. Os mais elevados
valores terrenos devem ser oferecidos em sacrifício a Deus... A
suprema revelação de Deus encontra-se nos profetas e nos santos.
Venerá-los é, na verdade, venerar a Deus. Os desígnios de Deus,
manifestados através deles, devem ser aceitos com humildade".
Seguindo nossa hipótese,
devemos concluir que aqui o I Ching está testemunhando a respeito de
si mesmo.
Quando alguma das linhas de
um hexagrama dado tem o valor de seis ou nove, significa que são
especialmente enfatizadas, e que, por isso, são importantes na
interpretação.6 Em meu hexagrama os "agentes espirituais"
enfatizaram com um nove as linhas na segunda e terceira posições.
Diz o texto:
Nove na segunda posição
significa:
Há
alimento no Ting.
Meus
companheiros têm inveja,
mas
nada podem contra mim.
Boa
fortuna.
Assim, o I Ching diz de si
mesmo: "Eu contenho alimento (espiritual)". Como a
participação em algo grande sempre desperta inveja, o coro dos
invejosos7 é parte da cena. Os invejosos querem despojar o I Ching
daquilo que ele possui de grandioso, isto é, procuram roubar ou
destruir o seu significado. Mas essa hostilidade é em vão. Sua
riqueza de significado está assegurada, isto é, o I Ching está
seguro de suas positivas conquistas, as quais ninguém lhe pode
tirar. O texto continua:
Nove na terceira
posição significa:
A
alça do Ting está alterada.
Ele
é impedido em suas atitudes.
A
gordura do faisão não é comida.
Quando
a chuva cair, o remorso desaparecerá.
A
boa fortuna virá ao final.
A alça (em alemão Griff)
é a parte pela qual o Ting pode ser segurado (gegriffen). Portanto,
significa o conceito8 (Begriff) que se tem do I Ching (o Ting). No
decorrer do tempo, esse conceito aparentemente mudou, de modo que
hoje já não podemos apreender (begreifen) o I Ching. Assim, "ele
é impedido em suas atitudes". Já não somos mais amparados
pelo sábio conselho e pela profunda visão intuitiva do oráculo;
por isso, não mais encontramos nosso caminho através das
complexidades do destino e da escuridão de nossa própria natureza.
Já não mais se come a gordura do faisão, isto é, a melhor e mais
rica parte de um bom prato. Mas quando, finalmente, a terra sequiosa
novamente receber a chuva, isto é, quando esse estado de carência
for superado, o "remorso", isto é, a tristeza pela perda
da sabedoria tiver cessado, virá a tão esperada oportunidade.
Wilhelm comenta: "Isso descreve alguém que, em meio a uma
cultura muito desenvolvida, encontra-se numa posição em que não é
notado nem reconhecido. Isso é um grande obstáculo à sua atuação".
O I Ching parece estar lamentando que suas excelentes qualidades não
sejam reconhecidas e portanto permanecem inexploradas. Conforta-se
com a esperança de recuperar, em breve, o reconhecimento.
A resposta dada, nessas
duas linhas de destaque, à pergunta que formulei ao I Ching não
requer nenhuma sutileza especial de interpretação, nenhum
artifício, nenhum conhecimento incomum. Qualquer pessoa com um pouco
de bom senso pode compreender o significado da resposta; é a
resposta de alguém que tem uma boa opinião sobre si próprio, mas
cujo valor não é pela maioria reconhecido, nem sequer amplamente
conhecido. Quem responde tem uma noção interessante sobre si mesmo:
se vê como um recipiente no qual as oferendas ao sacrifício são
trazidas aos deuses, a comida do ritual destinada à sua alimentação.
Concebe a si próprio como um utensílio de culto destinado a prover
o alimento espiritual para os elementos ou forças inconscientes
("agentes espirituais") que foram projetados como deuses -
em outras palavras, para dar a essas forças a atenção que elas
necessitam para desempenhar seu papel na vida do indivíduo. Na
realidade, esse é o significado original da palavra "religio"
- uma cuidadosa observação e consideração (de ''relegere")9
do numinoso.
O método do I Ching leva
realmente em consideração a oculta qualidade individual existente
nas coisas e nos homens e também no nosso próprio inconsciente.
Interroguei o I Ching como fazemos com alguém a quem estamos prestes
a apresentar a nossos amigos: perguntamos se isso seria ou não
agradável a ele. O I Ching, como resposta, fala de seu significado
religioso, do fato de ser desconhecido e mal interpretado na
atualidade e sua esperança de voltar a ocupar um lugar de honra -
essa última parte obviamente como uma direta menção ao meu
prefácio ainda não redigido e sobretudo à tradução para o
inglês. Essa parece ser uma reação perfeitamente compreensível,
tal como se poderia esperar de uma pessoa numa situação similar.
Mas como surgiu essa
reação? Porque eu joguei três pequenas moedas ao ar e as deixei
cair, rodar e parar em cara ou coroa, conforme o caso. Esse curioso
fato de que uma reação que faz sentido surja de uma técnica que,
aparentemente, exclui, de início, todo e qualquer sentido, é a
grande conquista do I Ching. O exemplo que acabo de dar não é
único, respostas significativas são a regra. Sinólogos ocidentais
e importantes eruditos chineses deram-se ao trabalho de informar-me
que o I Ching é uma coleção de "fórmulas mágicas"
obsoletas. No decorrer destas conversas, meu informante algumas vezes
admitiu ter consultado o oráculo através de um adivinho, geralmente
um monge Taoísta. Naturalmente isto "só poderia ser bobagem".
Mas o estranho é que a resposta obtida aparentemente coincidia, de
um modo notável, com o ponto cego psicológico do consulente.
Concordo com o pensamento
ocidental que seriam possíveis inúmeras respostas à minha pergunta
e certamente não posso afirmar que outra resposta não terá sido
igualmente significativa. Entretanto, a resposta obtida foi a
primeira e única; nada sabemos sobre outras possíveis respostas.
Esta me agradou e satisfez. Fazer a mesma pergunta uma segunda vez
teria sido falta de tato, por isso não a fiz: "o mestre só
fala uma vez". O opressivo enfoque pedagógico que pretende
enquadrar os fenômenos irracionais dentro de um padrão racional
preconcebido é anátema para mim. Na realidade, coisas assim como
essa resposta devem permanecer tal como eram em sua primeira
aparição, pois só então sabemos o que faz a natureza quando
deixada em si mesma sem ser perturbada pela intromissão do homem.
Não se deve recorrer a cadáveres para estudar a vida. Além disso,
uma repetição da experiência é impossível pelo simples motivo de
que a situação original não pode ser reconstruída. Portanto, em
cada caso há apenas uma primeira e única resposta.
Voltemos ao próprio
hexagrama. Não há nada estranho no fato de que todo o Ting, O
CALDEIRÃO, amplie os temas propostos pelas duas linhas
ressaltadas. A primeira linha do hexagrama diz:
Um Ting com os pés
para o alto, emborcado.
É
favorável remover o conteúdo estagnado.
Uma
concubina é aceita em virtude de seu filho.
Nenhuma
culpa.
Um caldeirão que se
encontra de cabeça para baixo está fora de uso. Logo, o I Ching é
como um caldeirão que não está sendo usado. Virá-lo ao contrário
serve para eliminar o conteúdo estagnado, como diz a linha. Assim
como um homem toma uma concubina quando sua esposa não tem filho,
recorre-se ao I Ching quando não se encontra outra saída. Apesar do
status quase legal da concubina na China, na realidade ele não é
mais que um recurso de certa forma secundário; assim também o
processo mágico do oráculo é um recurso que pode ser usado com um
objetivo mais elevado. Não há culpa, embora se trate de um recurso
excepcional. A segunda e terceira linhas já foram discutidas. A
quarta linha diz:
O Ting com as pernas
quebradas.
A
refeição do príncipe é derramada,
e
nódoas recaem sobre sua pessoa.
Infortúnio.
Aqui o Ting foi posto em
uso, mas evidentemente de uma forma bastante canhestra, isto é,
abusou-se do oráculo ou o interpretaram erroneamente. Deste modo,
perdeu-se o alimento divino e se expôs à vergonha. Legge traduz da
seguinte forma: "o sujeito em questão irá coroar de vergonha".
O abuso de um utensílio de culto tal como o Ting (isto é, o I
Ching) é uma profanação grosseira. Evidentemente, o I Ching está
insistindo aqui em sua dignidade como um objeto de ritual e
protestando contra sua utilização profana.
A quinta linha diz:
O Ting tem alças
amarelas e argolas de ouro.
A
perseverança é favorável.
O I Ching parece ter
encontrado uma nova e correta (amarela) compreensão, isto é, um
novo conceito (Begriff), através do qual pode ser apreendido. Esse
conceito é valioso (de ouro). Há realmente uma nova edição em
inglês, que torna o livro mais acessível que antes ao mundo
ocidental.
A sexta linha diz:
O Ting tem argolas de
jade.
Grande
boa fortuna!
Nada
que não seja favorável.
O jade se distingue pela
sua beleza e suave brilho. Se as alças são de jade, todo o
recipiente será realçado em sua beleza, honra e valor.
Aqui o I Ching expressa-se
não só como estando muito satisfeito, mas também bastante
otimista. Pode-se apenas esperar futuros acontecimentos e, até lá,
contentar-se com a agradável conclusão de que o I Ching aprova a
nova edição.
Demonstrei nesse exemplo de
forma tão objetiva quanto me foi possível como o oráculo atua num
caso dado. Evidentemente, o processo varia um pouco segundo a forma
como a pergunta é formulada. Se, por exemplo, uma pessoa encontra-se
numa situação confusa, ela própria pode aparecer no oráculo como
aquela que fala, ou se a pergunta diz respeito a um relacionamento
com outra pessoa, essa pessoa pode aparecer como aquela que fala.
Entretanto, a identidade de quem fala não depende inteiramente da
maneira pela qual a pergunta foi formulada, da mesma forma que nossas
relações com nossos semelhantes nem sempre são determinadas por
estes últimos.
Freqüentemente nossas
relações dependem quase que exclusivamente de nossas próprias
atitudes, mesmo que não estejamos conscientes desse fato. Assim
sendo, se um indivíduo não tem consciência do seu papel num
relacionamento, poderá haver uma surpresa à sua espera, ao
contrário das expectativas, ele próprio pode aparecer como o agente
principal, como às vezes é indicado, de forma inequívoca, pelo
texto. Pode ocorrer também que tomemos uma situação demasiadamente
a sério e a consideremos de extrema importância, enquanto que a
resposta que obtemos ao consultar o I Ching chama a atenção para
algum outro aspecto inesperado, implícito na pergunta.
Tais ocorrências podem, ao
início, levar-nos a pensar que o oráculo é ardiloso.
Diz-se que
Confúcio recebeu uma só resposta imprópria, isto é, o hexagrama
22, Graciosidade - um hexagrama totalmente estético. Isso lembra o
conselho dado a Sócrates por seu "daimon": "Você
deveria fazer mais música" - e a partir de então Sócrates
começou a tocar flauta. Confúcio e Sócrates concorrem ao primeiro
lugar no que se refere a uma perspectiva racional e uma atitude
pedagógica diante da vida; mas é pouco provável que um deles tenha
se preocupado em "embelezar a barba em seu queixo", como
aconselha a segunda linha desse hexagrama. Infelizmente a razão e a
pedagogia, com frequência, carecem de encanto e graça, e assim,
afinal, o oráculo talvez não se tenha enganado.
Voltemos uma vez mais ao
nosso hexagrama. Apesar do I Ching não só parecer estar satisfeito
com sua nova edição, como até demonstra um enfático otimismo,
isso ainda não prediz o efeito que terá no público que se pretende
atingir.
Já que temos em nosso
hexagrama duas linhas yang enfatizadas pelo valor numérico nove,
estamos em condições de averiguar que tipo de prognóstico o I
Ching formula para si próprio. Segundo a concepção da antigüidade,
as linhas indicadas por um seis ou um nove possuem uma tensão
interna tão grande que faz com que se transformem em seus opostos,
isto é, yang em yin e vice-versa. Através dessa transformação,
nós obtemos no presente caso o hexagrama 35, Chin, PROGRESSO.
O tema desse hexagrama é
relativo a alguém que encontra toda sorte de vicissitudes do destino
em sua ascensão, e o texto descreve como ele deve se comportar. O I
Ching está nessa mesma situação: eleva-se como o sol e se dá a
conhecer, mas é repudiado e não inspira confiança - ele está
"progredindo porém em tristeza". Entretanto, "obtém-se
grande felicidade da parte de seu ancestral". A psicologia nos
pode ajudar a elucidar essa passagem obscura. Em sonhos e nos contos
de fadas, a avó, ou ancestral, freqüentemente representa o
inconsciente, pois esse último, no homem, contém o componente
feminino da psique.
Se o I Ching não é aceito pelo consciente, pelo
menos o inconsciente, em parte, o aceita e o I Ching está mais
ligado ao inconsciente que à atitude racional da consciência. Já
que o inconsciente é freqüentemente representado em sonhos por uma
figura feminina, poderia ser essa, no caso, a explicação. A figura
feminina pode ser interpretada como a tradutora, que deu ao livro
cuidados maternais, e o I Ching poderá facilmente considerar isso
como uma "grande felicidade". O I Ching prevê a
compreensão geral, mas teme ser mal usado. "Progresso como o de
um roedor." Mas está atento à advertência, "Não se
deixe levar por ganho ou perda". Ele permanece livre de
"partidarismos" e não se impõe a ninguém.
O I Ching, portanto, encara
seu futuro no mercado editorial americano tranqüilamente,
exprimindo-se aqui como o faria qualquer pessoa sensata a respeito do
destino de uma obra tão controvertida. Essa profecia é tão
razoável e cheia de bom senso, que seria difícil pensar-se em
resposta mais apropriada. Tudo isso ocorreu antes de eu ter
escrito os parágrafos anteriores. Quando cheguei a esse ponto, quis
conhecer a atitude do I Ching diante da nova situação. As
circunstâncias tinham sido alteradas pelo que havia escrito, uma vez
que eu mesmo tinha entrado em cena e, portanto, esperava ouvir algo
referente à minha própria ação. Devo confessar que enquanto
escrevia este prefácio não me sentia muito feliz pois, como alguém
com senso de responsabilidade em relação à ciência, não tenho o
hábito de afirmar algo que não possa provar, ou pelo menos,
apresentar de maneira aceitável à razão. É realmente uma tarefa
duvidosa tentar apresentar a um público moderno, crítico, um
conjunto de arcaicos "encantamentos mágicos", com a
intenção de torná-los mais ou menos aceitáveis.
Empreendi essa
tarefa porque julgo que há mais, no antigo modo de pensar chinês,
do que parece à primeira vista. Porém, é para mim constrangedor
ter que apelar à boa vontade e à imaginação do leitor, já que
tenho que introduzi-lo na obscuridade de um antiquíssimo ritual
mágico. Infelizmente conheço muito bem os argumentos que podem
levantar contra ele. Não temos sequer certeza de que o barco que nos
há de levar através de mares desconhecidos não tenha uma falha em
algum lugar. Não poderá estar corrompido o velho texto? Será
precisa a tradução de Wilhelm? Não estaremos enganados em nossas
explicações?
O I Ching a todo instante
insiste no autoconhecimento. O método pelo qual isso deve ser
alcançado está aberto a todo tipo de aplicações errôneas e por
isso não convém aos frívolos e imaturos nem aos intelectuais e
racionalistas. Só é apropriado àqueles afeitos ao pensar, à
reflexão e aos quais apraz meditar sobre o que fazem e o que lhes
ocorre - predileção essa que não deve ser confundida com o mórbido
cismar do hipocondríaco. Como indiquei acima, não tenho resposta
para a infinidade de problemas que surgem quando procuramos
harmonizar o oráculo do I Ching com nossos cânones científicos
aceitos. Mas é desnecessário dizer que nada "oculto" é
passível de ser deduzido. Minha posição nessas questões é
pragmática e as grandes disciplinas que me ensinaram a utilidade
prática desse ponto de vista são a psicoterapia e a psicologia
médica.
Provavelmente em nenhum outro campo temos que levar em conta
tantas incógnitas, e em nenhuma outra área temos que ter por hábito
adotar métodos que funcionam, ainda que, por longos períodos, não
saibamos por que eles funcionam. Curas inesperadas podem surgir de
métodos presumivelmente confiáveis. Na exploração do inconsciente
deparamos com coisas muito estranhas, das quais um racionalista se
afastaria com horror, afirmando, depois, que nada viu. A plenitude
irracional da vida ensinou-me a nunca descartar nada, mesmo quando
vão contra todas as nossas teorias (que mesmo na melhor das
hipóteses têm vida tão curta) ou quando não admitem nenhuma
explicação imediata. Naturalmente isso é inquietante e não
sabemos, com certeza, se a indicação da bússola está correta ou
não, porém a segurança, a certeza e a paz não conduzem a
descobertas. O mesmo ocorre com esse método divinatório chinês. O
método aponta claramente para o autoconhecimento, ainda que em todas
as épocas tenha sido usado num sentido supersticioso.
É claro que estou de todo
convencido do valor do autoconhecimento, mas valerá a pena
recomendar semelhante introspecção, quando os mais sábios homens
em todos os tempos pregaram essa necessidade sem êxito? Este livro
representa, e isto é óbvio até mesmo para os mais preconceituosos,
uma longa exortação a uma cuidadosa análise de nosso próprio
caráter, a atitudes e motivações. Essa posição me atrai e
levou-me a escrever o prefácio. Só uma vez antes havia me
pronunciado acerca do problema do I Ching - foi durante um discurso
em memória de Richard Wilhelm.
Afora esta ocasião, mantive um
discreto silêncio. Não é tarefa fácil descobrir o caminho para
penetrar numa mentalidade distante e misteriosa como a que perpassa o
I Ching. Não se pode menosprezar tão facilmente grandes pensadores
como Confúcio e Lao-tse, quando se é capaz de avaliar a qualidade
dos pensamentos que eles representam; tampouco se pode ignorar o fato
de que o I Ching era sua principal fonte de inspiração. Sei que
anteriormente não teria ousado expressar-me de forma tão explícita
sobre assunto tão incerto. Posso correr esse risco porque estou
agora em minha oitava década e as volúveis opiniões dos homens já
não mais me impressionam; os pensamentos dos velhos mestres são
mais valiosos para mim que os preconceitos filosóficos da mente
ocidental.
Não gosto de incomodar meu
leitor com essas considerações pessoais, mas como já indiquei,
nossa própria personalidade está, com frequência, envolvida na
resposta do oráculo. Na verdade, ao formular minha pergunta eu como
que, de fato, convidava o oráculo a comentar diretamente minha ação.
A resposta foi o hexagrama 29 - K´an, O ABISMAL. Ênfase especial
foi dada à linha na terceira posição, pelo fato de ela ser
designada por um seis. Essa linha diz:
Para adiante e para
trás.
Abismo
sobre abismo.
Num
prigo como esse, detenha-se ao início e espere.
Senão
você cairá num buraco no abismo.
Não
atue assim.
Anteriormente eu teria
aceito incondicionalmente o conselho "Não atue assim" e
teria recusado dar minha opinião sobre o I Ching, pelo simples fato
de não ter nenhuma. Mas agora, o conselho pode servir como um
exemplo do modo como funciona o I Ching. É um fato, se começamos a
pensar nisso, que os problemas do I Ching representam "abismo
sobre abismo", e inevitavelmente deve-se "parar primeiro e
esperar" em meio aos perigos de uma especulação demasiado vaga
e desprovida de senso crítico; de outro modo, realmente nos
perderíamos na escuridão.
Pode haver uma posição intelectualmente
mais incômoda que a de flutuar na névoa de possibilidades não
comprovadas, não sabendo se o que estamos vendo é verdade ou
ilusão? Essa é a atmosfera quase onírica do I Ching, e nela não
encontramos nada em que possamos confiar, exceto o nosso próprio e
tão falível julgamento subjetivo. Não posso deixar de reconhecer
que essa linha representa muito apropriadamente o sentimento com o
qual redigi as páginas precedentes. As reconfortantes palavras
iniciais desse hexagrama são igualmente apropriadas - "Se você
é sincero, terá o sucesso em seu coração" - porque indicam
que o decisivo aqui não é o perigo exterior, mas a condição
subjetiva, isto é, se acreditamos sermos "sinceros" ou
não.
O hexagrama compara a ação
dinâmica nessa situação ao comportamento da água corrente, que
não teme nenhum lugar perigoso e mergulha sobre rochedos e preenche
os fossos que encontra em seu curso (K´an também significa água).
Essa é a maneira como o "homem superior" age e "exerce
o ofício de ensinar".
K´an é, sem dúvida, um
dos hexagramas menos agradáveis. Descreve uma situação na qual
alguém parece encontrar-se em sério perigo de ser apanhado em toda
sorte de armadilhas. Do mesmo modo que, ao interpretar um sonho, é
preciso seguir o texto do sonho com a máxima exatidão, assim, ao
consultar o oráculo, é preciso ter em mente a formulação da
pergunta, pois essa impõe um limite definido à interpretação da
resposta. A primeira linha do hexagrama mostra a presença do perigo:
"No abismo se cai num fosso". A segunda linha faz o mesmo e
acrescenta o conselho: "Deve-se procurar alcançar apenas
pequenas coisas". Eu aparentemente me antecipara a esse
conselho, limitando-me, no prefácio, a uma demonstração de como o
I Ching funciona na mente chinesa e renunciando ao projeto mais
ambicioso, de escrever um comentário psicológico sobre todo o
livro.
A quarta linha diz:
Uma jarra de vinho, uma
tigela de arroz,
louça
de barro, simplesmente entregues pela janela.
Isso
por certo não implica em culpa.
Wilhelm faz o seguinte
comentário a respeito:
"Em condições
normais, o funcionário que aspirava a um cargo devia trazer certas
oferendas e recomendações antes de ser nomeado. Tudo aqui está
simplificado ao máximo. As oferendas são modestas, não há ninguém
para recomendá-lo e ele tem de fazer sua própria apresentação. No
entanto, não deve se envergonhar por isso, se existir apenas a
sincera intenção de prestar uma ajuda mútua no perigo".
É como se o livro fosse,
num certo sentido, o sujeito dessa linha.
A quinta linha dá
continuidade ao tema da limitação. Observando-se a natureza da
água, verifica-se que ela preenche um fosso somente até a borda e
prossegue, então, fluindo. Não fica contida ali.
O abismo não está
cheio a ponto de transbordar,
está
cheio apenas até a borda.
Mas, se tentados pelo
perigo e em virtude apenas da insegurança, insistíssemos tentando
forçar uma convicção através de um esforço excepcional, como no
caso de elaborados comentários ou coisas semelhantes, atolaríamos
nas dificuldades que a linha ao alto descreve com grande precisão
como condições que tolhem e aprisionam.
Na verdade, a última linha
muitas vezes mostra as conseqüências decorrentes de não se levar a
sério o significado do hexagrama. Em nosso hexagrama temos um
seis na terceira posição. Essa linha yin de crescente tensão
transforma-se em uma linha yang e assim gera um novo hexagrama,
mostrando uma nova possibilidade ou tendência. Temos agora o
hexagrama 48 - Ching, O POÇO. O fosso cheio de água já não
significa mais perigo e sim algo benéfico, um poço.
Assim o homem superior
incentiva o povo em seu trabalho, exortando as pessoas a se ajudarem
mutuamente.
A imagem de pessoas
ajudando-se uma às outras pareceria referir à reconstrução do
poço, pois este está quebrado e cheio de lama. Nem mesmo os animais
bebem nele. Há peixes vivendo nele e pode-se apanhá-los, mas o povo
não é utilizado para beber, isto é, para as necessidades humanas.
Essa descrição lembra o Ting - O CALDEIRÃO - de cabeça para baixo
e fora de uso, que precisa receber uma nova alça. Além disso, esse
poço, como o Ting, está limpo, mas ninguém bebe dele.
Este é o pesar de meu
coração,
pois
se poderia usufruir dele.
O perigoso fosso cheio de
água ou o abismo referiam-se ao I Ching e o poço também, porém
esse último tem um sentido positivo: contém as águas da vida.
Deveria ser posto outra vez em uso. Mas não se possui nenhuma noção
(Begriff) sobre ele, nem utensílio algum para extrair a água; o
cântaro está quebrado e vaza. O Ting precisa de novas alças pelas
quais se possa segurá-lo, e o poço também deve receber um
revestimento, pois contém "uma fonte límpida e fresca, da qual
se pode beber". Pode-se tirar água dele porque é "digno
de confiança".
Está claro neste presságio
que o sujeito que fala é outra vez o I Ching, representando-se como
uma fonte de água da vida. O hexagrama precedente descreve com
detalhes o perigo que ameaça a pessoa que acidentalmente cai num
fosso dentro do abismo. Ela deve procurar a saída, para poder
descobrir que se trata de um velho poço em ruínas, enterrado na
lama, mas passível de ser restituído ao uso novamente.
Submeti duas perguntas ao
método do acaso representado pelo oráculo das moedas, a segunda
pergunta tendo sido formulada depois de eu ter escrito minha análise
da resposta à primeira. A primeira pergunta como que se dirigia ao I
Ching: o que tinha ele a dizer sobre minha intenção de escrever um
prefácio? A segunda pergunta referia-se à minha própria ação, ou
melhor, à situação na qual eu era o sujeito agente que discutira o
primeiro hexagrama. À primeira pergunta o I Ching respondeu
comparando-se a um caldeirão, um recipiente de ritual que
necessitava de renovação e que estava encontrando apenas uma
questionável aprovação da parte do público. A resposta à segunda
pergunta dizia que eu me encontrava numa dificuldade pois o I Ching
representava um profundo e perigoso fosso com água no qual
poder-se-ia facilmente atolar. No entanto, o fosso com água revelou
ser um velho poço que precisava apenas ser restaurado para tornar-se
útil novamente.
Esses quatro hexagramas
são, em seus elementos centrais, coerentes entre si quanto ao tema
(recipiente, fosso, poço), e no que se refere ao conteúdo
intelectual parecem ser significativos. Se um ser humano desse tais
respostas, eu, como psiquiatra, teria de considerá-lo mentalmente
sadio, pelo menos, com base no material apresentado. De fato, eu não
teria sido capaz de descobrir nada de delirante, de oligofrênico ou
esquizofrênico nas quatro respostas. Diante da extrema antigüidade
do I Ching e de sua origem chinesa, não posso considerar anormal sua
linguagem arcaica, simbólica e floreada. Ao contrário, eu teria
felicitado essa hipotética pessoa pela amplitude de sua intuição
do estado de dúvida que não chegara a expressar.
Por outro lado,
qualquer pessoa inteligente e versátil pode torcer tudo isso e
mostrar como eu projetei os meus conteúdos subjetivos no simbolismo
dos hexagramas. Semelhante crítica, ainda que catastrófica do ponto
de vista do racionalismo ocidental, não afeta a função do I Ching.
Ao contrário, o sábio chinês me diria sorrindo: "Não percebe
quão útil é o I Ching para fazer com que você projete num
simbolismo abstruso seus pensamentos, até então não percebidos?
Você poderia ter escrito seu prefácio sem jamais perceber a
avalanche de mal-entendidos que o mesmo poderia desencadear".
O ponto de vista chinês
não se preocupa com a atitude que se adota frente ao funcionamento
do oráculo. Somos unicamente nós que estamos confusos, porque
tropeçamos repetidas vezes em nosso preconceito, ou seja, a noção
de causalidade. A antiga sabedoria oriental enfatiza o fato de que o
indivíduo inteligente compreende seus próprios pensamentos, mas não
se preocupa de modo algum com a forma como o faz. Quanto menos se
pense sobre a teoria do I Ching melhor se dormirá.
Parece-me que com base
nesse exemplo, um leitor sem preconceitos estaria agora em condições
de, pelo menos, tentar formar uma opinião aproximada sobre o modo de
operar do I Ching.
Mais não se pode esperar de uma simples
introdução. Se, através dessa demonstração, consegui elucidar a
fenomenologia psicológica do I Ching, terei alcançado o meu
propósito. Quanto aos milhares de perguntas, dúvidas e críticas
que esse livro extraordinário suscita, não posso respondê-las. O I
Ching não se apresenta com provas e resultados, não se vangloria de
si, nem é de fácil abordagem. Como uma parte da natureza, espera
até ser descoberto. Não oferece fatos, nem poder, porém para os
amantes do autoconhecimento, da sabedoria - se estes existem - parece
ser o livro indicado.
Para alguns seu espírito parecerá claro como
o dia; para outros, sombrio como o crepúsculo; e para outros ainda,
obscuro como a noite. Aquele que não o aprecia, não precisa usá-lo
e aquele é contra, não é obrigado a considerá-lo verdadeiro. Que
o deixem seguir para o mundo em benefício daqueles que sejam capazes
de discernir seu significado.
romeromaia@gmail.com