As pesquisas eleitorais erram ou influenciam você?



"Erro, logo existo."
Santo Agostinho

Este artigo é parte do livro "Política e comportamento: debates da realidade brasileira", publicado em 2024. 
 
 
 
Pesquisas eleitorais podem atrapalhar o processo eleitoral brasileiro. Mas não porque elas erram demais. Não, elas não erram muito. De Luciano Huck  (veja aqui) à BBC (veja aqui), esse assunto já foi e está sendo bastante debatido no país. Contudo, vale a pena tratar das pesquisas aqui por um ângulo menos observado. Se entendermos bem o que é erro numa pesquisa amostral, veremos que o único problema sério não é esse mas o impacto das pesquisas. Para fraudes, os institutos já trabalham sob forte regulação legal e preocupados com a credibilidade no mercado.

Consideremos o caso dos 4 principais presidenciáveis na última pesquisa Datafolha realizada logo antes do 1º turno. É um bom exemplo porque as entrevistas foram presenciais, feitas bem próximas da data de votação, possui maior amostra, e o instituto realiza pesquisas apenas para veículos de comunicação, não atendendo políticos, partidos e empresas em geral. O que se observou? A pesquisa acertou em cheio a ordem dos candidatos. Mas alguém pode perguntar: “E Ciro?” A interpretação correta da queda de Ciro é que sua margem de erro possibilitava que ele ou Tebet ocupassem o 3º lugar.

Nos percentuais, Ciro ficou muito próximo do esperado, isto é, 0,96 ponto. Já Bolsonaro cresceu 5,2 pontos percentuais. Uma diferença considerável. Qual a interpretação para isso? É que esses percentuais poderiam aparecer em 5 entre 100 pesquisas realizadas com a mesma metodologia. Entretanto, uma vez detectada a disparidade, segue-se o processo normal de propor hipóteses. A mais simples é que havia 2% de indecisos mais 15% que poderiam mudar de voto. Outra hipótese é que líderes da direita, ao incentivarem abertamente (veja aqui) uma postura hostil contra os institutos (veja aqui), tenham ocasionado mais recusas à prestação de informações entre bolsonaristas. Mas se esses 5,2 pontos foram fraudados? Fraude é uma hipótese que pode ser usada contra qualquer tipo de pesquisa. No que concerne às pesquisas eleitorais, existem mecanismos de controle como a Lei 9504/97 e a própria ampliação econômica do setor.

Com a grande desconcentração do mercado privado de pesquisas, estamos no momento com menos incentivos para alguém tentar distorcer dados. Antes do 1º turno deste ano, já haviam sido realizadas mais pesquisas que em 2018 inteiro. Com vários produtores de pesquisas numa mesma área, os resultados vão se regulando mutuamente como é de praxe no campo científico. Além disso, partidos podem mover ações contra resultados suspeitos, e há a própria atividade parlamentar, como o PL11245/18 que proíbe o autofinanciamento de pesquisas.

Então, qual o problema sério mas pouco comentado envolvendo as pesquisas eleitorais? É que ninguém sabe mensurar ao certo qual o impacto das pesquisas na tomada de decisão do eleitor. Isso prejudica candidatos menos conhecidos e os que largam atrás, deixando-os fragilizados nas rodadas de negociação por apoio político e fontes de financiamento.

O Ibope (atual Ipec) constatou, em 2018, que o que mais impactava a decisão do eleitor eram as notícias na TV, seguidas do debate entre os candidatos, e conversas com amigos, respectivamente. As pesquisas eleitorais só apareceram em 10º lugar, reconhecidas como influentes por 7%. Entretanto, quando assistimos  às notícias na TV, as pesquisas estão lá. Estratégias para debates são formuladas a partir do ranking das pesquisas. Sem falar no quanto as pesquisas são discutidas entre amigos.

Essa onipresença das pesquisas entre as demais variáveis mostra que sua influência é complexa e não pode ser considerada apenas isoladamente, mas também como fonte de variação por interação. Sendo assim, as pesquisas tendem a influenciar (veja aqui) o eleitor para uma escolha antecipada e difícil de ser mudada. A tendência do eleitor de aderir à maioria é conhecida como efeito bandwagon (mais sobre vieses cognitivos pode ser lido aqui). Uma vez estabilizadas as intenções de voto, surge uma das piores consequências das pesquisas influenciando as eleições: o famigerado voto útil. Para isso a arte legislativa também já propõe alguns remédios. Está em tramitação o PL4574/12 que visa aumentar para 15 dias a distância entre as pesquisas e o dia da votação, dificultando o voto útil.

Não existe pesquisa amostral sem erro. Nosso maior desafio é entender como resultados prévios podem se transformar no que o sociólogo americano Robert Merton (mais famoso por ser pai do Robert Merton vencedor do Nobel de Economia de 1997) batizou de "profecias autorrealizáveis" (veja aqui). Isso é o que realmente importa para quem se preocupa com a democracia. O erro não é critério para inviabilizar um trabalho de pesquisa porque é intrínseco à Estatística. Mas a divulgação de pesquisas pode tornar muito desigual a competição eleitoral. E esse é um bom motivo para criticá-las sem cairmos propositalmente em erro.

.  Romero Maia - Instagram: @SimpliciDados
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